Conversas sobre autonomia…

Esses dias pude assistir uma entrevista com a professora Gilberta Acselrad do Núcleo de Estudos Drogas e AIDS  da UERJ e fiquei muito animada. Animada com tamanha lucidez, que não se corrompeu com as inúmeras tentativas da jornalista em fazer a professora dizer o que ela queria ouvir. Os jornalistas tem esse terrível hábito, de querer que a gente fale aquilo o que eles querem ouvir e não o que realmente pensamos.
Por outro lado fiquei animada também com a relação que consegui fazer de utilizar uma discussão sobre drogas e transferir para as modificações corporais. Tanto em um caso – das drogas – quanto em outro – as modificações corporais – o que fica evidente é a importância da autonomia dos indivíduos.
Reproduzo abaixo a entrevista original e na sequência o meu hacking para uma reflexão sobre as modificações do corpo.

CONVERSA ORIGINAL

maconha

Jornalista: (…) lhe surpreendeu esse número de quase 50% dos universitários usando drogas?
Professora: Não, não surpreende, provavelmente deve ter havido uma… Nas respostas. Em geral essas pesquisas trabalham com questionários anônimos e seguramente há uma subnotificação.

O que é uma subnotificação?
Muita gente vai dizer que não usa, quando de fato já usou. O que acontece de fato é que…

Então, ou seja, desculpa interromper, esse índice é mais alto do que isso que saiu na pesquisa?
Acho que sim. Pode ser que sim e isso não me assusta em absoluto, porque de fato a nossa cultura, a cultura brasileira como todas as outras culturas, conhece, usa e procura as drogas. Já é um lugar comum se dizer que o uso de drogas é paralelo, ele faz parte da história da humanidade. É específico de quem tem consciência querer experimentar com a consciência. O problema de fato não é o usar a droga.

Qual seria o problema?
O problema é o da perseguição as drogas. Quer dizer, a política anti drogas que vigora, na maior parte, em todos os países do mundo a partir do século XX, do século passado, tornou algumas drogas ilícitas e tem como ideal um mundo livre de drogas. Esse mundo nunca existiu e nunca existirá.

A senhora então é partidária daquele grupo que é favor da liberação?
A gente chama na verdade da legalização das drogas. Legalização significa você tornar as drogas… Qual seria o papel do Estado com a legalização, seria controlar a elaboração, a qualidade de todas as drogas que existem e de outras que estamos inventando e estamos descobrindo. Controlar essa elaboração e a qualidade e ajudar as pessoas que se sentirem prejudicadas, que sofram por essa liberdade, que é uma liberdade social.

É, essa é uma questão polêmica, que a gente pode combinar até uma outra entrevista só para falar sobre esse assunto. Agora eu queria voltar aos universitários, a senhora trabalha formando profissionais para conversar, tratar e ensinar exatamente em relação as drogas. Como é a melhor maneira de lidar com os jovens¿ De tentar diminuir ou prevenir ou evitar que esse jovem se torne um viciado?
Prevenção significa evitar que alguma coisa aconteça. Então, você pode evitar a tuberculose com uma vacina, a gente tá tentando evitar a gripe suína com uma vacina, então, mas as drogas não são uma doença infecciosa. Não adianta você divulgar a importância, objetivo central da abstinência, porque quem não pode, não quer ou não consegue ser abstinente fica fora do teu projeto de educação. Então, o caminho é a educação por autonomia. O que é uma educação por autonomia¿ É desenvolver nas pessoas a capacidade de reflexão e ação que seja protetora de si e de seu entorno.

Parece um pouco assustador. Parece, enfim, quase uma atitude normal deixar que eles experimentem e que cada um tenha responsabilidade de usar da melhor maneira possível.
Sim, não cabe ao Estado deixar ou não deixar, as pessoas vão usar, isso faz parte da nossa cultura, não só da brasileira, mas da cultura humana…

Mas as pesquisas não tem mostrado que esse uso vem aumentando?
Sim, o Estado tem a função, além de controlar a elaboração e a qualidade das drogas, ele tem que informar da forma mais completa e razoável possível tudo o que se dispõe em termo de conhecimento sobre as drogas. Agora a decisão de usar ou não, queira o Estado ou não é individual.

Mas pela sua experiência, de que maneira é possível tentar falar com o adolescente ou com o universitário sobre o perigo, na medida que ele usa, ele tá assumindo um perigo, um risco…
Risco que é maior na medida da interdição de certas drogas. Você consumir maconha hoje em dia, quando o mercado é ilegal, você não tem o controle de qualidade da maconha, ela vem misturada com outras substâncias…

Mas a maconha por si só é perigosa.
Não, não. A maconha por si só, nenhuma droga por si só é perigosa. O que é perigosa é a cocaína no mercado ilegal misturada com pó de mármore. Isso é altamente perigoso. A maconha misturada com amônia…

Eu discordo um pouco da senhora, acho que a droga pela própria definição é um alucinógeno, é uma coisa que pode levar um adolescente, pode criar dependência química, pode criar dependência emocional. Então, a senhora me desculpe, eu realmente tenho a tendência, tenho dois filhos jovens, a minha tendência é tentar ver se essas pessoas, se o jovem de uma maneira geral, podem ficar mais distantes das drogas do que estão hoje. Mas eu entendo a sua posição.
O uso de drogas no contexto em que nos vivemos hoje em dia é altamente explosivo, porque você não tem controle de qualidade, você não tem informação que dê essa possibilidade de você fazer um uso adequado ou até de você optar em não fazer uso, dado o contexto em que nós vivemos.

Eu acho que é preciso alertar os jovens que na medida em que ele aceita fazer o uso, ele tá correndo muito risco. Não só porque é ilegal, mas porque aquilo vai fazer mal ao corpo dele, ao cérebro dele.
Talvez nesse momento, mais eu aconselharia um jovem é participar de debates, é participar de movimentos de esclarecimento sobre o que se tornou hoje em dia um problema. Porque no passado não foi assim. O caos que nós vivemos com as drogas é recente em termos histórico. Ele tem no máximo 100 anos.

 

 

CONVERSA HACKEADA

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Suposta jornal: (…) lhe surpreendeu esse número de quase 50% dos universitários fazendo modificações corporais?
Supostx professorx: Não, não surpreende, provavelmente deve ter havido uma… Nas respostas. Em geral essas pesquisas trabalham com questionários anônimos e seguramente há uma subnotificação.

O que é uma subnotificação?
Muita gente vai dizer que não modificou o corpo, quando de fato já modificou. O que acontece de fato é que…

Então, ou seja, desculpa interromper, esse índice é mais alto do que isso que saiu na pesquisa?
Acho que sim. Pode ser que sim e isso não me assusta em absoluto, porque de fato a nossa cultura, a cultura brasileira como todas as outras culturas, conhece, usa e procura as modificações corporais. Já é um lugar comum se dizer que a modificação corporal é paralela, ele faz parte da história da humanidade. É específico de quem tem corpo querer experimentar com o corpo. O problema de fato não é modificar o corpo.

Qual seria o problema?
O problema é o da perseguição as modificações corporais. Quer dizer, a política anti body mods que vigora, na maior parte, em todos os países do mundo a partir do século XXI, nosso século, tornou algumas modificações ilícitas e tem como ideal um mundo livre de modificação corporal. Esse mundo nunca existiu e nunca existirá.

A senhora então é partidária daquele grupo que é favor da liberação?
A gente chama na verdade da legalização das modificações corporais. Legalização significa você tornar as modificações… Qual seria o papel do Estado com a legalização, seria controlar a elaboração de suprimentos, a qualidade de todas as modificações que existem e de outras que estamos inventando e estamos descobrindo. Controlar essa elaboração e a qualidade e ajudar as pessoas que se sentirem prejudicadas, que sofram por essa liberdade, que é uma liberdade social.

É, essa é uma questão polêmica, que a gente pode combinar até uma outra entrevista só para falar sobre esse assunto. Agora eu queria voltar aos universitários, a senhora trabalha formando profissionais para conversar, tratar e ensinar exatamente em relação as modificações do corpo. Como é a melhor maneira de lidar com os jovens? De tentar diminuir ou prevenir ou evitar que esse jovem se torne um modificado¿?
Prevenção significa evitar que alguma coisa aconteça. Então, você pode evitar a tuberculose com uma vacina, a gente tá tentando evitar a gripe suína com uma vacina, então, mas as modificações corporais não são uma doença infecciosa. Não adianta você divulgar a importância, objetivo central da “não modificação”, porque quem não pode, não quer ou não consegue ser “não modificado” fica fora do teu projeto de educação. Então, o caminho é a educação por autonomia. O que é uma educação por autonomia? É desenvolver nas pessoas a capacidade de reflexão e ação que seja protetora de si e de seu entorno.

Parece um pouco assustador. Parece, enfim, quase uma atitude normal deixar que eles experimentem e que cada um tenha responsabilidade de se modificar da melhor maneira possível.
Sim, não cabe ao Estado deixar ou não deixar, as pessoas vão se modificar, isso faz parte da nossa cultura, não só da brasileira, mas da cultura humana…

Mas as pesquisas não tem mostrado que esse percentual vem aumentando?
Sim, o Estado tem a função, além de controlar a elaboração e a qualidade das modificações, ele tem que informar da forma mais completa e razoável possível tudo o que se dispõe em termo de conhecimento sobre as modificações corporais. Agora a decisão de se modificar ou não, queira o Estado ou não é individual.

Mas pela sua experiência, de que maneira é possível tentar falar com o adolescente ou com o universitário sobre o perigo, na medida que ele se modificar, ele tá assumindo um perigo, um risco…
Risco que é maior na medida da interdição de certas modificações. Você fazer uma tatuagem hoje em dia, quando o mercado é ilegal, você não tem o controle de qualidade da tinta, ela – pode – vir misturada com outras substâncias…

Mas a tatuagem por si só é perigosa.
Não, não. A tatuagem por si só, nenhuma modificação corporal por si só é perigosa. O que é perigoso é o implante no mercado ilegal misturado com silicone industrial. Isso é altamente perigoso. A tinta de tatuagem misturada…

Eu discordo um pouco da senhora, acho que a modificação do corpo pela própria definição é uma alteração, é uma coisa que pode levar um adolescente, pode criar deformação, pode criar dependência emocional. Então, a senhora me desculpe, eu realmente tenho a tendência, tenho dois filhos jovens, a minha tendência é tentar ver se essas pessoas, e o jovem de uma maneira geral, podem ficar mais distantes das modificações do que estão hoje. Mas eu entendo a sua posição.
A modificação do corpo no contexto em que nos vivemos hoje em dia é altamente explosivo, porque você não tem controle de qualidade coerente com as reais necessidades da área, você não tem tanta informação que dê essa possibilidade de você fazer um procedimento adequado ou até de você optar em não fazer, dado o contexto em que nós vivemos.

Eu acho que é preciso alertar os jovens que na medida em que ele aceita fazer a modificação, ele tá correndo muito risco. Não só porque é ilegal, mas porque aquilo vai fazer mal ao corpo dele, ao cérebro dele.
Talvez nesse momento, mais eu aconselharia um jovem é participar de debates, é participar de movimentos de esclarecimento sobre o que se tornou hoje em dia um problema. Porque no passado não foi assim. O caos que nós vivemos com as modificações corporais é recente em termos histórico. Ele tem no máximo 10 anos.

 

Por fim, recomendo que você também assista a entrevista. Vale a pena!

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