Entrevista sobre performance, corpo e gênero

Curso: Dança | Universidade: Universidade Federal de Uberlândia

1.     Como você entende a relação arte e vida?
Eu não sei. Tenho a impressão que sempre querem separar as coisas, colocar em caixas, forçando que olhemos isoladamente para esses pedaços. Assim o fizeram com corpo, mente e espírito (não no sentido cristão, mas como essência).
Eu entendo que tudo faz parte de um todo, tudo está intimamente conectado. Nesse sentido é que tenho profunda dificuldade em separar a arte da vida. Para mim elas são indissociáveis. As minhas criações artísticas são resultados das minhas experiências de vida e grosso modo elas são a vida em si.
Não consigo tirar férias de mim, não consigo ser ex eu… É um “ofício” que não tem pausa.

2.     Você realiza algum tipo de preparo antes de suas performances?
Depende do trabalho, depende do que é pedido, do que é abordado como discussão ou reflexão. Assim, a preparação pode ser desde uma longa noite de repouso ou o avesso, o extremo cansaço. Na maioria dos casos e experiências que tive, usei o corpo do momento. Aquilo que já está pronto, mesmo que às vezes doente, quebrado, queimado… Acontece.

Ah! Normalmente eu preciso de silêncio comigo mesmo. Não diria que isso seja algo como uma preparação, mas é um estado automático que meu psicofísico normalmente entra e pede. De modo geral eu preciso do silêncio em muitos momentos da vida.

3.     Em sua opinião, a Body Art teria um lado negativo? Como você explicaria isso.
Talvez o lado negativo da body art seria o fato de considerarem qualquer coisa como body art. Mas acho que esse não é um problema exclusivo desse campo artístico, a gente vê isso bastante em várias áreas, inclusive fora das artes.
Nos últimos anos, por exemplo, eu tenho escrito bastante sobre a diferença entre body modification e body art. Não por eu querer separar as coisas e colocar em caixas como eu disse acima, mas por serem termos e práticas distintas por base. Nesse caso em específico, tenho a sensação de que se emprega a palavra arte como forma de buscar legitimar uma prática não muito bem vista socialmente, o que é um equívoco antropológico. A gente não precisa da arte para legitimar práticas sociais, culturais, políticas, históricas de séculos. Inclusive a gente nem precisa afirmar e legitimar nada, já está posto.

4.     Como você aborda as questões de gênero no seu trabalho?
Tenho buscado através da minha vida e arte questionar tudo aquilo que está dado, que está posto sócio-culturalmente, o que abarca as discussões sobre o gênero. Isso já acontecia antes de eu me entender como uma pessoa trans* e que agora está evidenciado em tudo o que eu faço. A questão de gênero é de uma importância absurda e que já deveria estar super bem resolvida no nosso tempo, só que não. Como já nos ensinaram os pensadores, tudo aquilo que nos foi entregue como natural na verdade é fruto de um processo de construção cultural. Que é quase sempre parte da imposição, dominação, colonização. Que é quase sempre vinda do homem, cisgênero, heterossexual, branco, burguês, judaico-cristão e ocidental. Esses modelos todos me trouxeram sofrimento psicofísico durante a maior parte da minha vida. Poder me libertar disso tudo tem sido um processo intenso e transformador. Dito isso, acho que mais importante de saber como eu abordo as questões de gênero, é saber que eu as abordo o tempo todo e em tudo. Principalmente através da negação do gênero que me forçaram (e ainda forçam) a ter. Quem, se não eu para dizer a que gênero me sinto pertencente?

5.     O que seria o sexo neutro?
Quando passei a refletir mais sobre a minha sexualidade, foi a melhor maneira de definir aquilo que eu sentia: neutro. Nem uma coisa e nem outra. O sexo neutro é parte da minha “falta de consciência” sobre as questões de gênero e sexualidade, no sentido acadêmico, erudito, político, etc. Eu carregava a sensação de que apesar de ter nascido biologicamente do sexo masculino, eu não me sentia como tal. Nunca me senti homem, para ser bem sincero. O que não quer dizer que eu me sinta ou queira ser mulher. Eu sinto que eu seja a negação desse binarismo.  Muito recentemente – em uma outra entrevista- descobri que tudo o que pensava sobre gênero e sexualidade fazia de mim o que se conhece como queer. Ainda assim, eu gosto de usar o umbrela term trans*, acho politicamente mais coerente e significante para mim.

6.     Pra você qual a diferença entre Body Modification e Body Art?
A body art é uma coisa e body modification outra, não se tratam de lugares comuns. Todavia cabe pontuar que tais práticas podem caminhar em conjunto, o que não quer dizer que isso ocorra em todas as situações. Existem variações de acordo com os pressupostos envoltos em cada processo: a body art pode acontecer sem estar ligada com a modificação do corpo e a modificação corporal não está sempre inclusa em um contexto artístico. O que há de ponto comum entre os dois termos – tão logo distintos movimentos – é unicamente o corpo.
No link abaixo eu dou uma aprofundada na discussão, para quem se interessar:
http://www.frrrkguys.com.br/body-modification-apropriacoes-culturais-e-falhas-interpretativas/

7.     Você se sente agredido quando se fere fisicamente nas performances?
Nunca. Normalmente a agressão e ferimento vem antes e depois acaba virando uma performance. Cortes, queimaduras, perfurações dentro das ações estão bem longe de qualquer relação com agressão. Esse tipo de ferimento é parte da poesia e beleza da performance.

8.     Como você percebe o FRRRKGUYS dentro do universo da performance?
Acho que o FRRRKguys fez bem pouco para a performance art. Temos poucas entrevistas com artistas, algumas publicações de eventos, livros e nada muito além disso. Não me sinto tão seguro para escrever sobre performance art e talvez isso me trave um pouco. Ao mesmo tempo acho que tem muita gente falando de performance com bastante qualidade por aí, diferentemente do que acontece com as modificações corporais.
Ah! Mas a performance é algo que não deixamos de lado, tanto é que em nossas festas sempre reservamos um espaço especial para elas. A contribuição é pouca, mas muito sincera.

9.     Quais sãos os seus limites físicos e psicológicos na realização de uma performance?
Nunca sei de antemão quais são os meus limites. Sei que eles existem e aparecem e acho que eles são responsáveis por eu estar com vida ainda. rs

Já aconteceu de rolar um apagão durante uma performance em Curitiba e eu soube que ali foi o limite do dia.

10.  Seu corpo é um objeto artístico?
É um objeto artístico e ao mesmo tempo uma ferramenta para execução de artes.

11.  O que não pode um corpo na performance?
Isso eu não posso te responder. Acredito que o corpo pode tudo e não só na performance. O corpo pode tudo na vida. O corpo precisa ser livre.

12.  Porque você é um artista?
Eu tenho uma dificuldade gigantesca de bater no peito e dizer que sou artista. Você nem imagina o quanto é pesado para mim falar “eu sou artista”. Acho que é um rótulo pesado, quase sempre carregado de pensamento e lógica burguesa. Não sei, não me desce bem e nem meinteressa muito carregar esse status-fardo no ombro.
Eu faço uma ou outra coisa de arte e sigo vivendo a vida e acho que é isso. Sem pausa.

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