Entrevista sobre performance, frrrkguys, arte e política

Entrevista de janeiro de 2014 para a Revista Lifestyle Tattoo.

1)     Como foi o seu 1° contato com a Performance Art enquanto cursava Moda?
No curso de graduação em Moda (2005) havia uma disciplina intitulada como Expressão Corporal e as aulas eram ministradas pela professora Raquel Ornellas, que desenvolvia um trabalho com dança. É bem verdade que antes disso eu já tinha tido um contato distante com a performance art através de pessoas da comunidade da modificação do corpo – principalmente pelos trabalhos de Priscilla Davanzo –, mas parecia ser algo distante para mim e para minha vida naquele momento. Não tinha a ideia de que um dia eu viria trabalhar e viver a performance. Eis que a professora acabou utilizando um texto básico e introdutório sobre performance conosco e desenvolvemos algumas experiências performáticas durante o semestre. Sem dúvida alguma foi um momento importante para mim, tanto que aqui estou nas vésperas dos dez anos de correria..
Como eu já vinha experimentando coisas no corpo através da modificação corporal, encontrei na performance a chance de mesclar possibilidades que já existiam no curso da minha vida. Parece que tudo foi fazendo mais sentido e ficando mais claro, ao mesmo tempo, caótico, confuso e anárquico.
No meu primeiro trabalho, FUR (2005), eu já explorei a questão dos fluídos corporais, especificamente o sangue, questionando o consumo de pele animal no mercado da moda, através da retalhação do meu próprio corpo. Desde então soube que a trajetória não seria tão simples e isso foi um estímulo para seguir adiante.

2)     Durante sua faculdade de História, já havia o interesse no assunto? Como foi desenvolver a iniciação científica sobre Modificação corporal no Brasil? Quais eram suas fontes e qual a sua relação com elas até então?
Acho que o interesse existe em mim independente da graduação que eu faça ou tenha feito. O corpo – cada vez mais – me interessa, (bio)politicamente falando inclusive, o interesse é gigante.
Eu já vinha pesquisando as modificações corporais desde o momento que as integrei na minha vida em 1997. Sempre me interessei muito pela história dessas práticas, pelas pessoas que as praticavam, os profissionais que as faziam… A graduação em História (2008) só me ajudou e abriu novas portas. Houve o receio inicialmente de não conseguir um orientador que aceitasse o meu tema, mas por incrível que pareça encontrei na História as portas e as mentes mais abertas do que na Moda. Foi um processo trabalhoso, pois toda pesquisa assim o é quando levada com a seriedade necessária. Ao mesmo tempo sinto que é um trabalho muito maduro apesar de ser apenas uma iniciação científica.
A minha orientadora, professora doutora Jussara Amed, foi muito generosa e aberta. Apesar do corpo não ser a sua especialidade, ela colaborou muito com a minha pesquisa. Consegui ótimas trocas, excelentes referências, diálogos e reflexões. Acho que uma amostra de que o trabalho é relevante está no fato de agora eu estar contando sobre ele, mesmo após quatro anos de sua finalização. Isso para mim é significante e importante. As pessoas ainda querem ouvir o que tenho a dizer sobre essa pesquisa. Ainda pretendo publicá-la como livro em algum momento.
As minhas fontes partiam de uma bibliografia que me ajudava a compreender o século XX, obviamente alguns autores que refletiram sobre o corpo e poucos outros que abordaram especificamente a modificação corporal. A história oral se fez bastante presente também, uma vez que as pessoas estão vivas e por se tratar de uma história muito recente e que ainda está em construção. O meu recorte temporal foram as décadas de 80 e 90, então, as entrevistas se tornaram um recurso muito valioso pra mim. Por sorte a maioria dos entrevistados eram pessoas que eu tinha uma certa proximidade, o que facilitou mais ainda as trocas todas.

3) Qual a origem do seu nome artístico T. Angel?
O T. Angel surgiu alguns anos atrás quando comecei a assinar textos, poesias, desenhos e posteriormente a tal da performance. Esses dias eu encontrei um trabalhinho que fiz em 2002 e que já existia o tal do T. Angel.
O pseudônimo é bastante importante para mim… Ele fala sobre a minha mitologia pessoal e meu universo particular. Passa pela minha infância, histórias de família, meus sonhos e inclusive sobre a forma que penso a minha sexualidade e meu gênero. Gosto da ideia de sexo neutro que a figura andrógina do anjo remonta e essa reflexão e inquietação estão cada vez mais presente em mim. Os anjos são demasiados queer!
Não é apenas um nome artístico…

3)     Seu fascínio pela beleza freak vai até onde? Como é seu dia-a-dia?
Eu espero que o meu fascínio pela beleza freak não tenha limites e siga até onde tiver que seguir. Sinto que o senso de belo da sociedade contemporânea está cada vez mais deturpado por um padrão totalmente questionável. O senso do belo tem sido quase sempre eugenista, racista, burguês, consumista, cissexista e normatizador… O corpo está sendo – cada vez mais – controlado e as pessoas estão aparentemente anestesiadas e pior, querendo cada vez mais fazer parte desse ciclo destrutivo. Não tenho o menor interesse nesse tipo de beleza pausterizada, típica da fabricação em série e que ao fim e ao cabo desmonta toda a subjetividade das pessoas, tudo aquilo que pode fazer de cada um de nós seres únicos. Dispenso. Como dizia o saudoso Raul, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

O meu dia é muito, mas muito mesmo, tranquilo. Faço as minhas atividades físicas, leio algumas coisas, trabalho um pouco e ouço música a maior parte do tempo. Cuido do meu filhote e das plantas… Esporadicamente viajo para trabalhar e passear e assim tudo segue.

 
4)     Quando o Frrrkguys foi criado qual era a sua pretensão? Passado alguns anos, como você encara ele?
Em 2006 quando criei o FRRRKguys a ideia era ter um espaço onde a beleza freak masculina fosse vista. Montei algo como uma galeria de imagens de meninos modificados em uma rede social bastante utilizada na época, o Fotolog. A minha ideia era apenas poder ter um espaço na web onde eu pudesse ver meninos bonitos com corpos modificados. Naquele momento não havia nenhum espaço do tipo, acabei atendendo as próprias necessidades do projeto. Disso saiu o website, as festas e outros tantos eventos que partiram dali. Inclusive passei a escrever sobre as modificações corporais, pela ausência de espaços que o fizessem.
Completaremos oito anos de existência no dia 21 de Junho, acho que é um tempo bom. Hoje eu olho para o FRRRKguys com outros olhos, principalmente depois que a Piel Magazine encerrou suas atividades em 2011 e que Shannon Larratt (fundador do BMEzine) faleceu ano passado. Sinto um pouco que tenho a responsabilidade de continuar o trabalho por conta deles, ambos são de uma importância singular pra mim.
Já pensei em encerrar o trabalho algumas vezes, mas atualmente eu só vejo as minhas energias se renovando. Tenho cada vez mais vontade de escrever sobre essa comunidade, que é a minha comunidade… Eu acredito muito no poder das modificações corporais, na sua força transformadora na vida das pessoas. Foi através dessas práticas que eu pude aceitar o meu corpo, pude ver alguma beleza em mim. Foi alterando o meu corpo que passei a me odiar menos. Assim como eu, conheço tantas e tantas pessoas que partilham da mesma sensação.
Justamente por isso, hoje o FRRRKguys tem uma missão política de defender as práticas, praticantes e profissionais da modificação do corpo. Defender inclusive de algumas poucas pessoas de dentro da própria comunidade que estão atrapalhando toda a evolução dessas práticas. É inaceitável que as pessoas não tenham o direito de estudar e se aprimorar tecnicamente, como tem acontecido ultimamente. Mesmo que surjam dezenas de projetos de lei proibindo as modificações do corpo, nós não vamos parar o nosso trabalho e tão pouco parar de incentivar que as pessoas modifiquem seus corpos. Vamos continuar escrevendo sobre todas essas técnicas e práticas de utilização do corpo. Vamos denunciar cada opressor que tentar interditar os nossos corpos e os usos que pretendemos fazer deles. Não aceitamos que o Estado e, as instituições de modo geral, tenham direito maior que o nosso no poder de decisão.sobre os nossos corpos. E é por isso que vamos continuar trabalhando duro.
Mesmo que derrubem o site algum dia, eu não irei me calar e acho que é isso.

5)     Qual o seu cuidado em selecionar e pesquisar os temas abordados no Frrrkguys?
O meu maior cuidado tem sido em entender o que determinado tema carrega em sua carga estrutural, aquilo que não está dito. Tenho procurado manter o cuidado de buscar enxergar aquilo que não está no primeiro plano, aquilo que está velado…  Esse cuidado não é gratuito. Como costumo dizer, as modificações corporais não estão descoladas da sociedade, apesar de ser um contra fluxo estético em alguns casos. Quero dizer com isso, que o fato de não estar descolada, faz com que exista a reprodução de tudo aquilo que é de ruim também: machismo, sexismo, racismo, homofobia, transfobia, xenofobia, gordofobia e por aí segue. E isso é mais comum do que parece… Eu bem sei que muita gente não lê o site por ser “coisa de viado”, já ouvi pérolas do tipo.
Então, o meu maior cuidado é esse, escrever de forma crítica, bastante analítica, libertária e progressista. Não trabalho de maneira imparcial e livre de intenção.
O meu trabalho com o FRRRKguys é para agregar e possibilitar o acesso de informações sobre a alteração do corpo para todas as pessoas, nesse sentido, escrevo para gente negra, favelada, travesti, homossexual, soro positivo, deficiente físico, pobre, anarquistas, hacktivistas, infratores, vândalos e por aí segue… Essa gente toda me enche de inspiração e sinto uma proximidade absurda para com elas. Como se não houvessem fronteiras que nos separassem.

6)     Como você encarou a Virada Cultural de 2013 que não abriu espaço para o Palco da Arte Corporal?
Lamentável. Trabalhei no palco da Arte Corporal em todas as edições da Virada Cultural (2010-11-12) e era visível o grande interesse por parte do público. Inclusive muita gente me escreveu através do site para saber se haveria de novo e tudo mais. Era um espaço muito importante para todos nós, de abertura, visibilidade e possibilidades. Existe uma carência de eventos do tipo em São Paulo.
Vou torcer para que tenhamos edições futuras. É sem dúvida um espaço muito importante e que vale a pena fazer acontecer novamente. Espero que os organizadores da Virada Cultural leiam isso. risos

7)     A França proibiu o uso de Tintas Coloridas nas tatuagens. Para você, qual a visão desse bloqueio social?
Eu tenho a sensação de que a galera do governo descobriu que a tatuagem gira muito capital. O que não é novidade, João do Rio já escrevia sobre isso lá em 1906.
Confesso que eu gostaria muito, de verdade, que essa fosse realmente uma preocupação do Estado com o bem estar das pessoas, como eles dizem ser. Mas a gente sabe que não é. Basta ver a quantidade de porcaria que é liberada livremente para que as pessoas comam, bebam, fumem, usem, consumam, consumam, consumam e consumam cada vez mais… Mc Donalds, Coca-Cola, cigarros, remédios e tantas porcarias que são livremente comercializadas, com aval do Estado, oras… E tenho que ouvir que a tinta da tatuagem oferece risco¿ Certo, não descarto a possibilidade que ela possa oferecer algum tipo de risco, mas e todo o resto¿
Parece que não existe diálogo, não tem escuta… É um monólogo, sempre de cima para baixo. Como sempre foi e que não podemos aceitar mais.
Essas regras todas passam muito distante da realidade dos tatuadores. O Estado fica criminalizando coisas que não deveriam e isso é um erro sério.
Essa questão está atrelada a luta de classes, assim como todas as outras interdições das práticas de se alterar o corpo. Quem tem dinheiro viaja para fora da França e faz a tatuagem que quiser e com a cor que desejar, já quem não tem dinheiro….
O mesmo é aqui no Brasil viu, diga-se de passagem, a situação daqui está tão vergonhosa quanto a de lá. Sem esquecer o fato de que a desigualdade social aqui é absurdamente maior que na França.
8)     Diante de fatalidades no mundo do eyeball tattoo, qual a sua preocupação e opinião sobre?
Não gosto do termo fatalidade. Temos alguns casos de erros que não foram fatais e isso analisando grande parte dos casos ao redor do mundo. Acho que todas as falhas fazem parte de um processo que envolve um procedimento novo. Um processo de aprendizagem implica em falhas, acontece. Inclusive me espanta que isso choque tanto a comunidade da modificação do corpo, parece que todos esqueceram as tentativas não tão bem sucedidas com implantes, piercings, escarificações e etc… Só eu sei de tantos casos que não sou capaz de contabilizar.
Com isso espero não soar negligente e vou me explicar. A minha maior preocupação hoje com o eyeball tattooing é que ele seja banido e criminalizado como se tem tentado fazer. Talvez aqui caiba a palavra fatalidade. O deputado federal Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC) escreveu um projeto de lei completamente equivocado sobre o eyeball tattooing e uma parte da comunidade da modificação corporal tem o defendido. Para mim isso soa como uma completa aberração cognitiva, como diria a professora Chaui, mas acontece.
O eyeball tattooing no Brasil tem uma série de problemáticas que poderiam ser amenizadas através de estudos, pesquisas e contato direto com a pessoa que desenvolveu a técnica, que inclusive tem muito interesse em vir aqui aplicar cursos. Quem sabe, no mundo ideal, contar até com a parceria com oftalmologistas e universidades. Não é estabelecendo proibições que o quadro vai mudar, só vai retardar o desenvolvimento técnico e aumentar os riscos. Sabemos que o eyeball tattooing não é um procedimento completamente seguro, mas defendemos integralmente a autonomia individual e  o direito de decisão dos indivíduos sobre seus corpos. Sou completamente contra ao PL 5790/2013, ao contraditório deputado e toda e qualquer pessoa que defender essa insanidade.

9)     Particularmente, qual o seu favoritismo no mundo da Arte Corporal? E por que?
Que exista corpo, que exista subjetividade, que exista anarquia, que exista poética, que exista caos, que exista a experimentação, que exista a liberdade, que exista a revolta, que exista a força, que exista a persistência. Que exista arte.
Porque sem isso não existe mais nada.

10)  Quais suas influências ou sua admiração por artistas brasileiros? Comente.
Sou influenciado pela música, dança, poesia, cinema, mangá, anime, fotografia, moda, comics… Como também pelas pensadoras (trans)feministas, pelas pessoas que estão escrevendo sobre a teoria queer. Sou influenciado por pessoas marxistas. Como também pelo terrorismo poético, pelos pichadores, pelos (bio)hackers…
Lá no começo eu citei uma pessoa muito importante pra mim, afetiva e artisticamente falando, que é a Priscilla Davanzo. Sabe aquela coisa de que o tempo passa e as afinidades só aumentam¿ Pois é. Penso que o trabalho dela seja muito importante para a história da arte corporal. Como a minha memória é péssima vou me limitar a citar apenas a Pris mesmo. Mas o Brasil está cheio de ótimos artistas VIVOS, prestigie-os!

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One Response to “Entrevista sobre performance, frrrkguys, arte e política”
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  1. […] atrás publiquei AQUI a entrevista que concedi para a Revista Lifestyle Tattoo. Achei que fosse demorar para sair e para […]



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