Sobre sujeito individual, inumanidade e uso da violência com Vladimir Safatle

Reproduzo trechos da entrevista do filósofo Vladimir Safatle para Revista Cult de Dezembro. São trechos que se interrelacionam com as minhas pesquisas no campo da arte (e vida) e fomentam as reflexões que tenho feito no FRRRKguys.com.br sobre a crise das modificações corporais no Brasil (e mundo).

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“(…) Há uma estratégia psicanalítica para escapar da alternativa de transformar todas as experiências subjetivas em manifestação de algo como uma potência despersonalizada que paira sobre nossas cabeças, organizando o espírito do mundo. É recolocar essa impessoalidade no interior da experiência corporal. A experiência corporal não é natural; ela não fornece uma normatividade natural, mas é setor da experiência social ou “espiritual”, se quisermos usar o vocabulário hegeliano. Há uma normatividade social que está presente no corpo e em todos os desejos, mas ela tem uma configuração tal que exige que o pensamento se confronte com algo não completamente transparente à consciência. Ou seja, a experiência corporal não é mera expressão de uma consciência. Ela é um espaço de reconhecimento, de algo que poderíamos chamar de “profundidade histórica inconsciente”. Há uma série de histórias que construiram meu corpo, histórias de vários sujeitos que construíram meu corpo, e todas elas habita um regime confuso, a experiência da minha corporeidade. A abertura a isso é uma dimensão na qual a natureza e a história se entrelaçam profundamente e também é uma maneira de se dar uma versão materialista àquilo que anteriormente se entendia por Espírito.”

 

“Adorno dizia que a humanidade é sempre brutal com aqueles que não reconhece como humanos. Há sempre uma estratégia de exclusão em todo discurso normativo sobre o homem.”

 

“Há cinco anos,  grevistas na França sequestravam patrões. Chegavam na sala do patrão e diziam “olha, é o seguinte, você está sequestrado e só sai daqui quando terminarmos a negociação, você vai ficar aqui três dias, quatro, uma semana”. O que é interessante é que não passou pela cabeça da polícia invadir e salvar  o sequestrado, porque isso é uma ação política, não uma ação de delinquência. É uma ação política no sentido de que essa não é uma violência que busca a destruição do outro. É a violência da urgência do clamor de justiça social. A urgência vinda da compreensão de que se não for assim, não seremos ouvidos. A democracia nunca foi contra essa violência, porque compreende a possibilidade de dissociação entre direito e justiça, principalmente quando aqueles que falam em nome da justiça não estão contemplados pelo direito. Eu não sou a favor do moo como as ações do black blocs ocorreram nesses últimos meses, porque elas são politicamente equivocadas, mas é verdade que me recuso a estigmatizá-los. As pessoas têm o direito de se revoltar, e se revoltar não é necessariamente mandar flores. Ninguém diz “não” com um sorriso no rosto. A violência que vemos é o sintoma social de um profundo sentimento de impotência e de raiva. Há de se entender de onde vem essa raiva e há de se responder politicamente ao sentimento de impotência. Além disso, há de se lembrar também que nós temos uma das polícias mais violentas do mundo, incapaz de fazer qualquer tipo de mediação social. É a polícia que mais tortura na América Latina. Se existe a violência policial e se existe o sentimento de impotência política, é impossível que não exista violência.”

 

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