Café

(…) Então, ele euforicamente perguntou: – Mas onde estão todos?
Ela, timidamente apertou mais forte os livros sobre o peito, como quem se abraça sozinha, e meio sem jeito respondeu: – Todos se foram. Todos sempre se vão, assim como eu mesma fui em algum momento.
Os rostos dos dois – com um certo desgaste do tempo – pensaram introspectivamente por segundos. A falta de assunto fez com que falassem dos poucos que morreram. Lembraram dos poucos que foram para outros países. Buscaram entender – de forma breve e superficial – a lacuna que separa a maioria dos que havia ficado aqui. Ambos culparam as obrigações e as correrias do cotidiano, mas no fundo sabiam que essa projeção não tinha cabimento algum. Era uma desculpa, das tantas que criamos para nos justificar.
Não que a vida não fosse corrida. Não que ser gente grande estivesse livre de muitas responsabilidades e obrigações.
No íntimo ambos sabiam que as lacunas surgiam da ausência de vontade e de querer a proximidade de outrora. Ainda que não houvesse desafeto algum. Algo tinha mudado…
O encontro foi rápido e logo eles se despediram fazendo votos de que se encontrariam para um café, que – ambos sabem – nunca vai acontecer. Não olharam para trás e nem para frente.
Ela seguiu seu caminho. Não pode deixar de ser atravessada pelo encontro.
Tentou retornar para a leitura, mas não tinha concentração suficiente nem para uma pequena poesia. Colocou os livros sobre as pernas, encostou a cabeça na janela do ônibus e adentrou-se em seu universo particular… Sozinha pensava, pensava…
Fazia muito barulho dentro de sua cabeça.

Caiu em um ligeiro sono. Sonhou que voltava no tempo e encontrava com todos. O som das vozes e risadas preenchia toda a sua cabeça. Fazia muito barulho.
Na companhia dos outros fez juras de que as amizades seriam eternas, que iriam envelhecer juntos e que estariam rolando no chão embriagados de álcool e alegria, para sempre. Se abraçaram forte – como quem se despede  – e gritavam que nada e ninguém, nunca poderia separá-los… Nunca!
Um espasmo seguido de um profundo suspiro a fez despertar de seu quase transe.
Não havia mais ninguém no ônibus. Nem mesmo ela.

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