Como Viver – Só. Palestra com Peter Pál Pelbart. Vídeo do 4º Seminário: VIDA COLETIVA – Seminários Internacionais para a 27ª Bienal de São Paulo. Realizada em 4 de agosto de 2006.

“Tomemos o caso de Bartebly da novela de Herman Melville: Um advogado contrata um escriturário, mas logo tem uma surpresa – a cada ordem que lhe dá, Bartebly responde: “I would prefer not to” (Eu preferiria não). Com essa frase seca e lacônica ele enlouquece o seu entorno – o advogado não entende este empregado plantado atrás do biombo, pálido e magro feito uma alma penada, que mal fala, mal come, sem família nem amigos, que nunca sai, irremovível, que só repete: “Eu preferiria não”. Com sua passividade ele esvazia a mola do sentido que garante a dialética do mundo e põe tudo a correr numa desterritorialização da linguagem, dos lugares, das funções, dos hábitos, ele não foge do mundo, mas faz o mundo fugir. Do fundo de sua solidão, tais indivíduos não revelam apenas a recusa de uma sociabilidade envenenada, porém são um chamamento para um tipo de solidariedade nova, o apelo por uma comunidade por vir.”

“Temos acesso às estratégias de exílio interno que uma criança inventa para evitar o homicídio que nos é proposto desde a mais tenra idade, fugindo a narrativa de si já sempre terceirizada pelos que nos “cuidam” e pelos que nos “amam”. Pergunta Juliano: Porque a assim chamada vida familiar, vida escolar e vida social, trituram a criança possível? Por que sobrevivem apenas os falsários, os que se identificam com a criança morta? Na esteira de Thomas Bernard, Juliano Peçanha se deu por tarefa denunciar o pacto da universal hipocrisia que assegura nossa existência social e cotidiana e desvela a argamassa metafísica que a cada instante nos impede de desabar, mas com isto paradoxalmente, vemos ruírem um a um, todos os personagens competentes que garantem “o negócio da administração da vida”, como diz Juliano: pais, educadores, psiquiatras, socializadores, homens da cultura, todos os que fazem as vezes de carcereiros da vida, em tempos de mobilização total, de alcoolismo existencial, eis uma voz que introduz uma palavra de hesitação, de espera e de pressentimento a partir de uma reclusão necessária.”

“Pois bem, nossa atualidade está longe de ter seguido uma tal direção, mesmo sobre tudo num capitalismo em rede que enaltece ao máximo as conexões e esconjura aquela solidão que o Deleuze defendia. Porém, ao mesmo tempo, esse capitalismo produz toneladas de uma nova e outra solidão e uma nova angústia – a angústia do desligamento; o capitalismo contemporâneo produz não só esta nova angústia de ser desconectando da rede digital, mas também a angústia de ser desconectado das redes de vida cujo acesso é mediado crescentemente por pedágios comerciais impagáveis para uma grande maioria.
Deveríamos pois, distinguir a solidão negativa socialmente produzida e em grande escala daquilo que Chaim Katz chamou de solidão positiva e que consiste em resistir a um socialitarismo despótico (uma modalidade que consiste em desafiar a tirania das trocas produtivas e da circulação social).”

“O Dramaturgo argentino Tato Pavlovski criou um personagem que ilustra com mais humor essa mesma reivindicação. O personagem dele chama-se Poroto (em português significa feijão) e a preocupação mais constante de Poroto é saber como é que ele vai escapar das situações que se apresentam o tempo todo. Se ele vai a uma festa, a primeira pergunta dele é onde que ele vai sentar para que ele possa escapulir sem ser notado; se ele vê alguém vindo do outro lado da rua – um conhecido, a preocupação é que álibi ele vai inventar para se desvencilhar desse conhecido. e ele chega a exclamar esta frase implacável, verdadeiro soco no estômago de muitos psicanalistas – embora o próprio Pavlovski seja também psicanalista – Poroto diz o seguinte: “Basta de vínculos, apenas contigüidade de velocidades”.”

“É hora de voltar a Deleuze: que solidão absoluta é essa que Deleuze reivindica, por exemplo, quando se refere a Nietzsche, Kafka, Godard e tantos outros? Diz ele, é a solidão o mais povoada do mundo, o que o interessa é que do fundo dessa solidão se possa multiplicar os encontros, não necessariamente com pessoas, mas também com movimentos, com idéias, com acontecimentos, com entidades. Diz Deleuze: “Nós somos desertos, mas povoados de tribos, passamos nosso tempo arrumando essas tribos, dispondo-as de outro modo, eliminando algumas delas, fazendo prosperar outras e todos esses povoados, todas essas multidões não impedem o deserto que é nossa própria ascese, ao contrário, essas tribos, multidões habitam este deserto, passam por ele, passam sobre ele. O deserto – a experimentação sobre si mesmo é a nossa única identidade, nossa única chance para todas as combinações que nos habitam”.”

“Diz ainda Guattari “O cúmulo da solidão desejante e o cúmulo dos socius”, ou ainda novamente Godard: “Estar sozinho, mas fazer parte de uma associação de malfeitores”. Em todo caso a deserção sempre, a traição da família, da classe, da pátria mesmo da condição de autor servir–se da solidão como um meio de multiplicar–se numa linha de fuga criadora. Assim, tal solidão é tudo, menos um solipsismo, é o meio pelo qual se deserta a forma do eu e seus compromissos infames em favor de uma outra conexão com os socius e o cosmos. De modo tal que o desafio do solitário, contrariamente a qualquer reclusão autista, ainda que ele se chame Bartleby, Gombro, Poroto e mesmo quando ele termina no hospício o desafio dele é sempre encontrar ou reencontrar o máximo de conexões, estender o mais longe possível, diz Deleuze “o fio de suas simpatias vivas”.”

“Entre um Bartleby, um Gombro, um Poroto, e mesmo um Bloom, todos esses nomes “beckettianos”, entre eles todos ou um de nossos louquinhos, vejo por vezes o esboço do que se poderia chamar de uma comunidade incerta, não sem conexão com aquilo que obcecou a segunda metade do século XX de Bataille a Agamben. A saber, e tudo isso que vou dizer agora são diferentes nomes que cada um dos pensadores deu a isso, a “comunidade dos que não tem comunidade”, a “comunidade dos celibatários”, a “comunidade inoperante”, a “comunidade impossível”, a “comunidade eletiva”, isto é, que nada tem a ver com a raça, o sangue ou a etnia. Barthes chamou isso, a seu modo e naquele momento, de socialismo das distâncias. Cortázar chamou a isso, num outro contexto, de Kibbutz do desejo. Gilles Châtelet retomou a consigna comunista, diz ele “a cada um segundo a singularidade”. Passado esse tempo, eu não sei que nome teria isso que eu tentei descrever e que talvez vem vindo, uma coisa é certa, diante da comunidade terrível que se alastrou pelo planeta feita de vigilância recíproca e frivolidade, esse seres que eu tentei descrever (mas será que são apenas eles?) necessitam de sua solidão para ensejarem sua bifurcação louca e para conquistarem o lugar de suas simpatias vivas.”

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2 Responses to “Como Viver – Só. Palestra com Peter Pál Pelbart. Vídeo do 4º Seminário: VIDA COLETIVA – Seminários Internacionais para a 27ª Bienal de São Paulo. Realizada em 4 de agosto de 2006.”
  1. André Torres disse:

    Você teria o texto na íntegra, por amor? Obrigado!

    • T. Angel disse:

      André, só tenho o que publiquei aqui. Caso consiga encontrar e puder compartilhar por aqui te agradeço.

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