Entrevista sobre body mods

Vida social – como se relacionam com os que não seguem suas práticas?

T. Angel – Irei responder como pesquisador e como sujeito que vivencia as práticas das modificações corporais. O que percebo durante esses anos todos é que não existe um grupo homogêneo na comunidade da modificação corporal. Parto da premissa que todos os seres humanos passam por algum tipo de modificação corporal durante a vida e mesmo quando fechamos o recorte no que se convencionou chamar body mods (tatuagem, piercing, escarificações, implantes e etc), a sensação é essa, diversidade. Então é impossível falar sobre um único modo de relacionamento quando estudamos a comunidade da modificação corporal. Justamente por isso resolvi responder como pesquisador e “modificado”.
Particularmente eu me relaciono com todo o tipo de gente, as que passam pelos processos de body mods do nosso recorte aqui e todas as outras. Não faço distinção pela carcaça, não escolho meus amigos pelos seus corpos…
Eu sou um defensor da diversidade no mais amplo sentido que a palavra possa sugerir. O que inclusive abarca as diversidades corporais.
Acho que isso é que dá sentido para vida.

Como é o relacionamento com outras tribos?

T. Angel – Eu não sei se o termo tribo ainda cabe quando falamos ou estudamos as body modifications. Tenho a sensação que o termo já foi gasto ou que não é correto para esse estudo em si, ainda que eu respeite o trabalho de Michel Maffesoli e reconheça a sua importância.
A comunidade da modificação corporal é extremamente heterogênea. Falar em tribo passa a sensação de que há unidade e isso não existe. Entra também aquela questão que todos – em certa medida – modificam os seus corpos de alguma forma. Por esse prisma haveria uma única grande tribo, o que não é verdade também.

Há uma ética no relacionamento dentro do mesmo grupo ou com outros grupos?

T. Angel – A minha sensação é a de que não exista consciência de classe entre os profissionais. Entre os entusiastas a gente cai naquele campo da diversidade. Então, haverão grupos que forjam suas próprias formas de existir e outros que apenas existem, inclusive fora de grupos ou coisa que o valha.

Religião/crenças – fazem parte de algum grupo religioso ou filosófico? Se sim, qual é a tendência?

T. Angel – As pessoas que modificam os seus corpos não estão descoladas do restante da sociedade. Apesar da sociedade ter tentado excluir esse grupo durante os séculos. Assim sendo, as religiões dominantes de toda a sociedade, serão as predominantes inclusive no meio body mods. Percebo que atualmente existe uma tendência da religião cristãs  em reconstruir os seus discursos afim de receber esses corpos modificados. Falo desta, pois é sabido o aumento de evangélicos no país e também pelo cristianismo, no seu viés mais conservador e totalitário, ter sido responsável direto em tentar extinguir as práticas de se alterar o corpo. Basta olharmos para os nossos índios e todo o movimento de contracultura das décadas de 70 e 80. Ou ainda revisitar toda a história do corpo no ocidente para se ter uma panorama mais abrangente. São dois lados opostos e extremos, mas apenas para tentar ilustrar a questão.

Eu sou ateu e acredito na laicidade do Estado, que por sinal estamos bastante distantes.

Formação acadêmica – estudam? Existem profissionais de diversas áreas?

T. Angel – Eu tenho bacharelado e licenciatura em História.
Falando de maneira generalizada…. Se o grupo é sortido, os níveis de formação serão tanto quanto. Você encontra desde estudantes colegiais à pós doutores e nos mais variados campos dos saberes.
Acho apenas importante mencionar que não há um único curso específico de capacitação para os profissionais das modificações corporais no Brasil.

Alimentação – adotam alguma dieta especial? Frequentam restaurantes, fast foods…?

T. Angel – Eu sou vegan e prefiro comidas caseiras.
Novamente a prova de que não se dá para falar em unidade quando analisamos as pessoas que se modificam é o campo da alimentação. Você encontra vegan, onívoro, ovo lacto vegetariano e por aí vai. Aqui também entra a questão de que esses sujeitos não estão descolados do restante da sociedade. Se a alimentação predominante ainda é a onívora, dentro do campo das body mods, o resultado será o mesmo.

Preferência musical – qual é o estilo de música preferido?

T. Angel – Eu gosto de música. Tanto que nem sei dizer. Eu não sei viver sem música. .. Gosto bastante de MPB, experimental, post rock, clássica…
No meio body mods impera a diversidade também, como em todas as outras questões anteriores. Um grand finale e a comprovação de que não existe um grupo e sim uma infinitude de pessoas que alteram suas formas, suas cores, suas texturas… E vivem a vida da maneira que acreditam.
Que viva la diversidad!

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