AS VÁRIAS FACES DE UM AGRADECIMENTO

As várias faces de um agradecimento
Sobre Obrigado por vir
De Key Zetta e Cia.
Por Thiago Soares
12º edição do Panorama Sesi de Dança 2012

No campo da dança contemporânea o trabalho da Key Zetta e Cia. me causa intensas reflexões e inquietações. Inclusive, ao passo que vou conhecendo o núcleo artístico através de seus trabalhos, sinto que cada vez mais o impacto é maior. Sobressalta-se a relação dos artistas da companhia com o tempo e espaço. Na primeira relação, isto é, a temporal, é notável o peso das referências orientais naqueles corpos. Sinto como se fizessem uso de um tempo quiçá ritual, de uma permanência poética, da durabilidade dos momentos e de todas as coisas. Sem pressa. Em minhas pesquisas e vivências artísticas, tenho mantido profundo interesse por ações de longa duração e pensando especificamente na dança, pelos movimentos que se formam e se fazem pela presença no espaço em si. Perceba que a segunda relação já se apresenta, a espacialidade. Um corpo na paisagem, com a sublime delicadeza dos movimentos, inclusive daquelas pequenas ações e gestos que quase não conseguimos enxergar. De tão delicados, de tão sublimes.

Durante o ano em que o mundo acabaria, pude assistir o Projeto Propulsão o que faz viver sem título, Vacuo – I, Impostor e o Obrigado por Vir, sendo este último apresentado no Panorama SESI de Dança e, tão logo, o trabalho que iremos discorrer nas próximas linhas. Obrigado por vir e por ler essas palavras que carregam o cheiro do café e da madrugada quente do verão.

A Key Zetta e Cia. surgiu da parceria de Key Sawao e Ricardo Iazzetta, que desenvolvem um trabalho artístico em parceria desde 1996. Ao passo que o núcleo artístico foi formado, passou a agregar e convidar outros artistas, criadores e colaboradores para seus projetos.

Ricardo Iazzetta é formado na The Juilliard School of New York, além de ter formação em práticas orientais de movimento (ba-guá, chi kung e tai-chi-chuan). Já Key Sawao estudou dança clássica e contemporânea em São Paulo. Ambos foram integrantes da Cia. Tamanduá de dança-teatro dirigida por Takao Kusuno (1945-2001).

Durante sua trajetória, a Key Zetta e Cia produziu diversos trabalhos, participou de importantes festivais de dança e foram contemplados com o Prêmio Klauss Vianna de Dança 2006 e 2008, além do Proac 17, Programa de Fomento à Dança e a lista segue. O núcleo é referência da dança nacional e influência na formação dos novos dançarinos e artistas de outras áreas, assim como aquele que aqui escreve agora.

Hello, thanks for being here. Hello, thanks for being here. Falemos então do espetáculo e começando pela apresentação ou convite deste através das redes sociais. A divulgação virtual de Obrigado por vir apresentava os dançarinos em momentos relaxados ao chão, com olhares de quem espera o “passarinho” da máquina fotográfica, sorrindo. A sensação como público-convidado era de querer deitar ali junto ou me sentar próximo e ali ficar, no aconchego do muito obrigado. Acredito que essa característica convidativa é bastante forte no trabalho.

Obrigado por vir foi criado originalmente em 2005 durante o Projeto Residências Artísticas Oficina Cultural Oswald de Andrade e participou do Panorama SESI de Dança do mesmo ano. Sete anos mais tarde houve a oportunidade de uma remontagem, que é a qual assisti e que falamos agora. Segundo informações disponibilizadas pelo próprio núcleo, a ideia inicial era de refazer algo bastante fiel à peça de 2005. No entanto, os ensaios os levaram para outros lugares, o tempo e os caminhos percorridos tiveram um papel fundamental na escolha e assim somou-se ao time Marina Massoli, Beatriz Sano e André Menezes.

Um grande espaço vazio era ocupado pelos corpos dos dançarinos. O vazio-preenchido era o cenário da vez. Acho importante falar da cenografia do núcleo, uma vez que ela é fruto da parceria com o arquiteto Hideki Matsuka. A escolha da vez não foi pela grandeza estética e por incontáveis pedaços de papel como em Vacuo, a simplicidade foi a escolha da vez. Era como se ali pudesse ser o aqui ou acolá. O presente de qualquer tempo. Novamente a questão da temporalidade se apresenta. Dessa vez, como um momento de possibilidades.

Pedestais com microfones eram alocados na parte frontal do palco por Ricardo Iazzeta e intercalados com a frase “obrigado por vir”. Os dançarinos surgiam e iniciavam cada qual a sua dança. Falando especificamente da dança corporal, preciso destacar ou grifar uma sensação forte em mim. Ao assistir os dançarinos mergulhados no espetáculo, imersos em suas concentrações particulares, eu senti vontade de sair correndo e encontrar um espaço em que eu pudesse dançar também. É incrível como é um trabalho convidativo, como previamente mencionei acima. Ao mesmo tempo, pela simplicidade do todo, deixei o teatro quando o espetáculo acabou, com a impressão de que poderia encontra a Key, o Iazzeta ou a Sano dançando pelo metrô enquanto eu comprava o meu ticket. Veja bem, a palavra simplicidade está aqui empregada como sinônimo do mais alto nível de acabamento artístico e acolhimento humano. E a ideia de vislumbrar o espetáculo para fora da caixa preta, recolado no cotidiano é no mínimo falar sobre uma extensão da arte para vida.
É emocionante essa possibilidade de assistir um espetáculo em que emana a ideia humana de que todos podem dançar e em qualquer lugar. Desde que haja corpo e desejo pelo movimento.

Algumas sensações são impossíveis de serem recriadas em cena como simulacros da vida real. Elas são ou não são e ponto.

Refletindo ainda nos textos que somam-se aos movimentos dos dançarinos, estes fazem pensar em nós como sujeitos históricos e o nosso movimento em sociedade. Que agradecimento somos dignos? A coreografia que se construía era composta por corpo de dançarino e corpo de texto. Que baile!

Nos ápices dos movimentos linguísticos Key Sawo declamou a idade de morte de várias possíveis influências, das mais variadas áreas da produção intelectual humana, a exemplo de Kazuo Ohno. Senti que esse gesto tão pontual e delicado fosse uma dança de agradecimento por eles que vieram e já se foram, mas que para sempre aqui estarão. Obrigado por virem, mestres.

Ricardo Iazzeta, no meio de suas entradas e saídas, assume o papel de clown e cutuca o senso comum. Satiriza os agradecimentos vazios e todo o humor sem graça. As crianças da plateia se divertiam, o que me fez pensar sobre a (i)maturidade das relações sociais contemporâneas e qual o tipo de agradecimento que se faz necessário. Agradecer o que e a quem?

Chutam-se as flores, as luzes se apagam e os aplausos preenchem o espaço do teatro. Muito obrigado por vir. Muito obrigado por vir.

 

Thiago Soares é graduado em História pelo Centro Universitário FIEO, pesquisador sobre os usos do corpo e artista da performance.

*Escrito originalmente para o Projeto 7X7

Foto: Roberto André

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Comments
One Response to “AS VÁRIAS FACES DE UM AGRADECIMENTO”
  1. key disse:

    Thiago, não tinha visto, lido, sentido este texto…Muito obrigada, *******************************************************************************************, bj

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