Entrevista sobre body mod, body art e política

Por Morpheus

Em 2006 surgiu no mundo da body art algo diferente e inusitado. Estamos falando do Frrrk Guyz, uma página que traz aos amantes da body modification uma visão aberta e sem estereótipos…
Ao longo desses 6 anos podemos acompanhar de forma inteligente tudo o que acontece nesse fascinante mundo.
O responsável pelo site se chama Thiago Soares, mais conhecido como T. Angel, um artista, pessoa, profissional, extremamente responsável e dedicado ao que faz. Procurando uma forma de homenageá-lo resolvemos inverter os lados… Transformá-lo no centro das atenções e conhecer um pouco desse ser intrigante e ao mesmo tempo fascinante e por que não dizer, apaixonante.

 

Conte-nos um pouco de sua trajetória, de como você iniciou nesse mundo…
Bem, costumo dizer que desde sempre me interessei por corpos que escapassem da regra normativa, do padrão ocidental… Corporalidades que ofereciam outras lógicas de ser me fascinavam e até hoje não mudou.

Sinto que na adolescência foi quando realmente tudo aconteceu, no sentido de que na prática comecei a interferir no corpo. Digo, toda a minha subjetividade aflorou de forma bastante intensa. Foi mais ou menos assim que “iniciei”…

A partir de que momento você começou a ingressar de cabeça na body art?
Eu sempre gostei de arte e estive envolvido com isso durante a vida toda. Acho que chegar no uso do corpo, digo, na arte corporal, foi um processo bastante natural. O fluxo que deveria correr mesmo, pensando na minha vida desde as minhas primeiras memórias.
Eu comecei com as body mods e pesquisando, conhecendo pessoas e artistas, acabei encontrando esse universo. Descobri que manipular, alterar, deformar e reformar o corpo poderia estar dentro do campo da arte contemporânea e isso me pegou. Acredito que o ano de 2005 foi marcante para mim nesse sentido. Quando realmente me atirei de cabeça na body art.
E quando sentiu a necessidade de utilizar o corpo para se expressar?
Por uma série de fatores acreditava que meu corpo era ineficiente e insuficiente. Não via potência alguma em minha fisicalidade… Passei por um processo de experiências e intensos trabalhos de consciência corporal. Descobri que sempre senti e tive a necessidade de usar o corpo como forma de expressão. O corpo fala e muitas vezes de maneira autônoma, o que é fantástico. Durante muito tempo somatizei como forma de comunicar algo.
Todo corpo expressa algo, o que muda é se temos consciência ou não disso.

E a partir daí, você teve contato com a suspensão?
Podemos dizer que a suspensão corporal entra no ciclo de atividades de autoconhecimento e consciência corporal que mencionei anteriormente. Já havia experimentado várias técnicas e procedimentos de manipulação do corpo (perfuração, queimadura, corte e etc) e vi na suspensão uma outra possibilidade. Não tinha ideia de como isso iria se revirar com o tempo. Inicialmente e ideia era tentar passar por uma experiência e só.

A primeira experiência como foi?
Eu conheci a suspensão corporal em 1998-99, fui buscando saber mais e realizei a minha primeira em 2005. Bom, eu queria que fosse algo reservado, tinha uma preocupação com isso. Na ocasião participaram duas pessoas que eu convidei (meu primo e prima) e três da “equipe” que iria fazer o procedimento.
Tive medo e me concentrei muito para que tudo fosse bacana. Na hora de tirar os pés do chão tinha a sensação que iria rasgar ao meio e cair. Mas depois alcancei o céu.
Foi marcante e uma experiência inesquecível, intensa, especial… Tanto que depois descobri que seria uma ferramenta potente para trabalhos artísticos e passei a pesquisar esse campo.
Como diz o senso comum, a primeira vez a gente nunca esquece.

 

Tem influência de algum outro artista?
Milhares, tantxs que prefiro não citar nenhum.

Todos os trabalhos que você se propõe a fazer trazem uma mensagem e um questionamento à sociedade. Como essas ideias surgem na sua cabeça, e como você as trabalha para que elas ganhem forma?
Na verdade não existe uma receita, as coisas acontecem e eu respeito esses fluxos emergentes. Em algumas situações as ideias “surgem” como forma de enfrentamento ou algumas vezes como uma resistência a uma série de questões problemáticas da sociedade em que estou inserido. Estou muito ligado com o ativismo LGBTTQ, animal liberation, feminismo e uma série de movimentos sociais das chamadas minorias e isso reverbera em minhas criações, sinto isso. O status quo é como uma pedra no meu sapato, me causa um incomodo tamanho e me movimento para expurgar a bendita pedra.
Frequentemente surge um estalo e escrevo ou desenho alguma ideia e que vai se moldando até que se transforma em alguma coisa (texto, foto, performance, movimento, etc)…

Você é historiador, e sabe-se que seu trabalho de conclusão foi sobre a body art. Por que?
Eu fiz uma pesquisa de iniciação científica sobre a modificação corporal nas décadas de 80 e 90. Não é um trabalho sobre body art, eu obviamente a menciono, mas apenas para criar um contraponto. Para mim (e uma série de pessoas) body mods e body art são termos absolutamente distintos. No meu texto, reforçando então que é sobre body mods, faço uma breve reflexão sobre esse dilema, quem se interessar pode ler. Mas adianto que tenho a intenção de cada vez mais aprimorar esse discurso e essa análise.
Eu fiz a pesquisa, porque na verdade ela já estava em fluxo desde 1997. Eu sentia que precisava formalizar essa coisa toda e aproveitei que estava vinculado à uma instituição e que poderia ter alguém para me orientar e aprofundar os estudos. Foi interessante.
Espero um dia publicar esse material como livro. Apesar de ter terminado em 2011, sinto que há uma relevância ainda. Veremos o que acontece.

A sua formação acadêmica influência nas suas performances?
Completamente. Não por conta da bobeira do título, mas pelas trocas que aconteceram durante o curso e toda carga de leitura de mundo que obtive
Para qualquer um que trabalha com criação, repertório é fundamental. Durante minha formação sinto que aprimorei o meu.

Com quais profissionais você faz suas perfomances?
Espero que com nenhum. Acharia um saco trabalhar com um performer profissional. Só de falar isso sinto um horror na espinha.
Gosto do que está em processo, do inacabado, do amador.

Também usa a suspensão como divertimento?
Já usei no começo, atualmente não mais. Mas respeito quem faz e inclusive participo de encontros, pois são experiências especiais e isso me interessa como entusiasta, praticante e pesquisador.
Estou envelhecendo, guardo a resistência do meu corpo para gastar nas performances. Ainda assim, sei que muito em breve não usarei mais – como praticante – a suspensão como parte do meu trabalho. São processos e poesias que correm seus fluxos. Vejo beleza nisso.

Mudando um pouco de assunto, mas deixando claro que as próximas questões não possuem um cunho politico e sim pessoal e falando sobre a situação atual do nosso país, que de certa forma também está ligado diretamente ao seu trabalho, já que você busca sempre um questionamento a sociedade, como foi dito anteriormente.  Como você vê a atual situação do Brasil e se você concorda com tudo o que esta acontecendo?
Concordar com tudo é impossível. A atual conjuntura dos fatos é complexa e pede cautela. Tenho medo do conservadorismo crescente e retrocesso constante que vivenciamos. Temo pela laicidade do Estado e acho um atentado social que tenhamos líderes religiosos tão empenhados em usurpar a constituição. Temo também pela direita que cada vez mais cresce no Brasil e mundo… É um pesadelo viver na periferia e ter vizinhos defendendo líderes da direita brasileira ou então ver os pedidos para que voltem os militares. Medo!!!
Mas apesar dos temores todos, vejo que há um movimento grande da esquerda que não entrega os pontos, que cobra e que faz…
Virar a direita jamais!!!

O governo aproveitou essa situação para dar andamento a projetos absurdos como “Cura Gay” e o “Ato Médico”, mesmo que não tenham sidos sancionados, porém, em contrapartida adiou a votação do PEC 37, como você encara essas atitudes e de que forma, na sua opinião, isso afetará o país?
Olha o retrocesso. Percebe¿ Os três projetos são sobre retrocessos, sem falar outros tantos assustadores. E essa galera ganha muito para escrever essas baboseiras todas. É uma piada.
O Brasil já está afetado, contaminado, doente e podre pelas mãos desses políticos corruptos. Eles agirem dessa forma só reforça ideia de que são tacanhos e vis.
Pelo que percebemos teremos muito o que brigar. Pois é…

 

Quais os próximos trabalhos você tem em mente e se algum deles tem alguma ligação com as manifestações que estão acontecendo no país?
Eu sofri um acidente e estou queimado, um saco! rs Preciso me recuperar para tirar coisas da cartola. Existem algumas coisas já rascunhadas. Inclusive eu faria uma ação na semana que me acidentei, era especialmente para o sujeito Feliciano. Ele diz que é pastor ou algo do tipo. No meu mundo, sujeitos como ele é tudo aquilo de pior que há. Enfim…

Pra finalizar, deixe um recado para nós…
Primeiro, quero dizer que você foi um danado e que me surpreendeu com essa entrevista. Merece um puxão de orelha e ficar de joelhos sobre milhos. rs
Mas sei o quanto de carinho tem nessa sua atitude e sou grato por isso. Acho que o recado é esse, receio não conseguir demonstrar toda a gratidão para as pessoas que vem e que passam pela minha vida. Gratidão infinita. Do meu jeito estranho, muitas vezes ausente e calado, mas muito honesto.
Obrigado por lerem o FRRRKguys durante esses anos todos. Beijos na boca de todxs!

Quero agradecer a oportunidade de conversar e conhecer um pouco de você, muito obrigado, e que o Universo te ilumine.

Beijos

Morpheus.

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