Fissuras do Tempo

Por Priscila Nunes

Imagens da alma.
Desde criança tenho uma fascínio por janelas não convencionais, aparentemente sem importância, das antigas casas altas do bairro da Consolação ou na Av. Paulista, onde havia porão e sótão. As janelas apertadas, onde estão guardadas as lembranças esquecidas. Eu não queria ver o que estava nas salas ou nos jardins, mas salivava de vontade em atravessar esses umbrais, onde teimamos em guardar objetos que não mais queremos, mas que em rompantes de loucura, podem nos avivar toda uma história. Perdidos entre teias de pó e sons ocos, esse é o lugar onde gosto de adentrar.
Desenhava janelas e olhos, janelas sem casa e olhos sem rosto, sozinhos, eles sempre me passavam muito mais do que inseridos em seu lugares comuns. Lembrei agora, minha primeira nota dez, na faculdade, foi com uma história assim. Pendurada numa janela suja, com um amigo me segurando, consegui fotografar uma cadeira velha e queimada dentro de uma sala incendiada, o objeto que restou, esquecido, mas a memória do ocorrido. Não havia nenhuma luz no local e o vidro cheio de fuligem não ajudava, mas insisti naquela solidão abandonada e no laboratório, consegui trazer a imagem. Engraçado como a fotografia digital nos tirou esse pequeno prazer, o fazer surgir. Esse brincar de arqueólogo, tirando pacientemente as camadas até acharmos nossos tesouros.
Anos depois fui fotografar em um hospital psiquiátrico, onde os olhos baixos estavam sempre fugindo de mim, aos poucos fui ganhando confiança, com cuidado, fui atravessando a soleira e pude entrar. Finalmente consegui retratos, com olhos brilhantes. Minha janelas, um reflexo, um retorno. Fui espelho.
Dessa experiência, ficou uma mania, fotografar as pessoas quando elas não estão prestando atenção, como um animal que se esgueira no mato esperando a caça se distrair para dar o bote. Me apaixono por olhares e quero descobrir o que existe por trás deles. Continuo na minha obsessão. Com isso acabei perdendo amigos, pessoas que pediam para que eu as fotografasse enquanto estavam pondo pra fora uma gama de sentimentos profundos. Uma vivência amarga, carregar seus segredos como uma caixa fechada, eu mesma esquecida no porão, um espelho coberto com lençol, para que eles não lembrassem que eu sabia, como se meus olhos refletissem seus guardados.
Tirei minha lição e hoje compreendo, continuo atravessando as cortinas, mas aprendi a fazer o resgate e cada história é diferente, cada segredo é único. Por vezes as pessoas querem muito que tudo venha à tona, na verdade tudo está escrito em seus olhos, só é preciso entender a linguagem, decifra-las, pois estão em pequenos sinais, gestos sutis que nossa vida imediatista não tem mais tempo para notar ou absorver.

Essa é minha terceira vez, nesse conceito que foi se aprimorando. Os primeiros, muito antes do meu entendimento, se resumiam em sentar no chão e deixar o outro extravasar, sem dizer nada, apenas registrar tudo. Depois, quando aprendi a fazer o resgate percebi duas coisas. É preciso ter um conhecimento prévio do que vai se tratar, porque de alguma forma eu preciso estar segura para poder garantir a volta do outro em segurança. E fui introduzindo objetos às cenas, para que aquele espaço, naquele tempo, fosse sagrado e o que acontecesse nele, ali ficasse.
Essa última história, foi a mais preparada, posso dizer assim. Não conheço Thiago profundamente, na verdade ele foi um grande presente trazido por outro viajante do tempo.
Faz uns três anos, eu acho. Vi fotos suas numa exposição e me apaixonei pelo seu olhar, eram fotografias muito distintas entre si, por isso o olhar foi tão predominante na minha leitura. Me disseram que ele era uma pessoa difícil e eu desisti de conhece-lo. Muito tempo depois, numa grata surpresa, ele apareceu justamente para ajudar um amigo em comum numa “Viagem da Alma”. Daí foram seis meses de namoro até eu conseguir dar o bote.
Thiago é uma dessas criaturas por quem você se apaixona ou tem medo, até quem tem medo se apaixona, não tem jeito. Ele faz do seu corpo a sua arte, suas verdades e seu mundo, de maneira extrema, agressiva, visceral, mas deixa aos olhos mais atentos a sua fragilidade, num olhar, num gesto com as mãos ou pés. Se você parar de apertar os olhos para não ver e soltar a respiração, vai ter uma vontade enorme de pega-lo no colo com cuidado e dizer que tudo vai ficar bem. É assim que eu o vejo e foi assim que eu pude conhecer sua história e tentar contar, através das minhas janelas, o seu mundo particular.

Da concepção ao ato final.
O performer T. Angel, é fácil de fotografar, parece ter nascido pronto para a câmera, não só com o olhar mas com todo seu gestual. Isso é fato.
Por não conhece-lo fiz questão de explicar a situação, não queria ele no seu extremo esforço físico, queria no plano sutil. Queria, onde vai a sua mente quando acontece o blackout, quando o corpo falha e você fica no vazio, só, no seu inconsciente.
Sentamos pra conversar num lugar que detesto, dentro de um shopping, mas foi tão profundo que só percebi a grande movimentação quando tive que levantar. Foi como se entrássemos num universo paralelo e tudo em volta não existisse, somente a sua história. Daí começamos a pensar num cenário, em objetos que remetessem ao seu passado e trouxessem a sua carga presente.
Não vou escrever sua história, isso deve ser visualizado e se ele quiser conta-la, com certeza é quem pode fazê-lo.
O que posso dizer, é que da nossa conversa, fui tirando os detalhes, as delicadezas que a vida nos impinge, nem sempre boas, mas com forte carga emocional. É preciso deixar claro, que lembranças que são segredos, nem sempre são tristes, por vezes são o que formam nosso caráter, nossa forma de enfrentar o mundo, apenas não falamos sobre isso no dia a dia, estão cravadas no nosso espírito como cicatriz quase indelével, mas que às vezes ainda coça.
Criamos algumas peças que serviriam de figurino, pedi que me trouxesse objetos pessoais e me ocupei de achar elementos representativos, mas tudo só poderia ser efetivamente criado no dia, com ele.
O dia mais longo do ano começou às 15:30 e acabou às 9:00horas do dia seguinte, mas ao acabar, eu poderia começar de novo.
Tem coisas que acho importantes quando faço esse tipo de trabalho, vou lidar com o mais profundo de um ser humano, ele vai se despir pra mim, então penso que o mínimo que devo, é fazer com que esse ser se sinta totalmente acolhido, amparado, protegido. Por mais complicado que acabe sendo e sempre é, prefiro trabalhar só, do que com pessoas que não deixem o outro à vontade. Nesse caso tenho meu fiel escudeiro, a única pessoa com quem deixaria minha alma, alguém que sabe ler meus pensamentos e costuma surtar junto comigo, mas que me traz pra Terra quando voo muito longe. Renan me ensinou sobre o amor e a devoção pelo outro, não poderia ter melhor companhia para acolher meu convidado.
Thiago, também trouxe aquele que o deixa em ”Paz”, Alexandre veio para retirar o sangue necessário para uma das cenas e eventualmente, se se sentisse disposto, participaria das fotos e assim foi. Junto com ele, veio Maria.
Sangue, material de uso contínuo no trabalho de T.Angel, de alguma forma ele sempre estará lá. E tudo começa com ele, como se a falta, não permitisse qualquer nascimento criativo, não sei se isso é uma verdade, apenas minha observação pela trajetória que estudei.
Depois de passarmos umas duas horas, estirados no tapete, olhando o livro de memórias do próprio Thiago, entre outros de nosso interesse, começamos nossa jornada. Dei cola e tesoura, conchas e rendas. Pedi que decorassem caixas com objetos importantes, enquanto Renan e eu criávamos a nossa própria caixa em tamanho natural, o espaço da mente, das lembranças bem guardadas, algo que eu chamei de relicário. Ali foi firmado um espaço sagrado, onde tudo poderia acontecer.
Dizem que quando mentalizamos muito alguma coisa, de forma a parecer concreto, elas acabam surgindo. E foi assim que Maria acabou virando maquiadora e fez um trabalho belíssimo, dando forma a nossa imaginação.” O Demônio do Amor”, a cura, o resgate tomou vida. Adoro quando a magia acontece.
Mais que isso, não tenho como contar, só sei que levou horas, que chorei em determinado momento e tive a certeza que a vida inteira de uma pessoa passou na minha frente, em forma de poesia e que em cada movimento, eu sabia o que estava sendo vivido.
Tudo, não ficou bom, nem pode ser mostrado porque foi um movimento contínuo, sem pausas para repetir um gesto ou corrigir uma luz, apenas aconteceu e me virei para não interromper essa viagem.
Sobre Thiago, não sei se seremos amigos, mas ele conquistou meu amor e bem querer para sempre, mesmo que nunca mais nos vejamos, ele mora na minha caixa de memórias gostosas.
Sobre Maria e Alexandre, não poderia haver pessoas mais doces para ajudar a criar um espaço de aconchego, cumplicidade e comunhão.
Sobre Renan, o seu amor é o elemento mágico para que exista toda a criação, pra que eu continue acreditando que as pessoas podem se unir apenas pelo grande prazer de compartilhar suas experiências.
Totalmente grata, por ter estado naquele espaço tempo, junto com vocês, num lapso que nos arrebatou para um Universo Paralelo….ainda sinto a energia desse dia.
25 de maio de 2013.

Fissuras de Thiago Soares
Foto: Priscila Nunes
Produção: Renan Correa
Arte e maquiagem: Maria Sudo
Oni do Amor: Kuroi Hana

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