De cabras a ratos de laboratório – a evolução dos gays no Brasil

Por Daniel Ribeiro

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Em um vídeo que está circulando nas redes sociais, o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC–SP), presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, se propõe a explicar o projeto 234/2011 do deputado João Campos popularmente conhecido como “cura gay”. Segundo Feliciano, há um grande equívoco na maneira como o projeto vem sendo divulgado e entendido, já que o texto não fala em permitir a cura gay, mas sim em retirar o parágrafo único do artigo 3° do Conselho Federal de Psicologia que diz:

“Parágrafo único- Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.”

No vídeo, Feliciano argumenta que não é o projeto em votação que fala em cura, mas sim o próprio texto do Conselho Federal de Psicologia. Para o deputado, o erro é achar que a comissão que preside quer aprovar a cura gay quando a ideia original é simplesmente tirar a proibição da cura. Em uma manobra de palavras mal sucedida, ele novamente afirma que querem aprovar a possibilidade de tratamento e cura de homossexuais por psicólogos.

Feliciano continua sua exposição afirmando que o psicólogo é um profissional da saúde que estuda a mente e que “isso está sempre em evolução”. O parágrafo único em questão, segundo ele, proíbe o psicólogo de estudar. Ele fala ainda que não há um consenso sobre a homossexualidade entre os psicólogos de “todo o mundo” e, por isso, este ainda é um fenômeno comportamental que ainda está sendo estudado. “O parágrafo único impede que qualquer profissional de continuar estudando o assunto. De continuar tentando entender o que é isso, que fenômeno comportamental é esse”, afirma. Para ele, como a Ciência não descobriu o “gene gay” , a pessoa não nasce gay.

Ao fazer tais afirmações, Feliciano chega ao momento mais atordoado de sua proposta. Segundo ele, todos os profissionais da saúde teriam então o direito a fazer experimentações a revelia. No limite, o que ele propõe é similar a autorizar que um neurocirurgião possa fazer experimentações baseadas apenas em suas convicções pessoais enquanto opera o cérebro de um paciente.

Feliciano que tantas vezes evoca argumentos científicos para legitimar suas proposições parece não entender bem como se faz ciência. Para conduzir qualquer experimentação em humanos no Brasil, o pesquisador deve ser vinculado a uma instituição e ter seu projeto aprovado e monitorado por um comitê de ética. Tantas pesquisas em andamento a respeito de vacina para doenças como Aids e câncer demoram tanto a apresentar resultados exatamente porque para que se possa realizar testes em humanos, os cientistas devem esgotar as possibilidades de causar qualquer dano às pessoas.

Experimentos não se fazem em consultório. E os profissionais da saúde não têm e não devem ter o direito de realizar tais tipos de testes, como quer Feliciano. Ciência se produz por pesquisadores em instituições de ensino superior ou institutos voltados para a produção científica, ambos altamente monitorados por órgãos reguladores nacionais e internacionais. Se a revista Veja comparou os gays a cabras, Feliciano os coloca na condição de ratos de um laboratório de brinquedo. O projeto 234/2011 do deputado João Campos coloca os gays deliberadamente nas mãos de qualquer profissional que queira realizar experimentações de forma irresponsável. O texto expõe os gays ao constrangimento de serem legitimamente “estudados” sem qualquer seriedade.

Os profissionais da saúde devem aplicar em seus pacientes técnicas e procedimentos comprovadamente eficazes para o tratamento, cura e alívio dos males. Não cabe a um médico no exercício de sua profissão realizar experimentos em seu consultório. Instituições como a Universidade Federal de São Paulo são pioneiras na realização de pesquisas na área da saúde chamam frequentemente voluntários para participarem dos estudos. Esses voluntários passam por uma rigorosa triagem e são enfaticamente orientados de todos os riscos que esses procedimentos envolvem.

Com a aprovação do projeto que visa a cura gay, Feliciano pretende que qualquer psicólogo possa causar traumas em seus pacientes em nome de uma ciência fajuta, de uma experimentação que em seu entendimento é direito do profissional. No limite, Feliciano legitimará que gays de todo o país continuem a ser violentados em nome de uma moral que não leva em consideração a ética científica, a história e os direitos humanos.

O vídeo em questão está no link: http://www.youtube.com/watch?v=LcClBBNeczc&feature=player_embedded#

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