Fissuras no tempo

Eu tenho sérios problemas de ordem psicológica por viver em um mundo em que sinto como se eu fosse um corpo estranho. Sabe a peça do quebra-cabeça que não encaixa? Pois é, eu me sinto assim na maior parte do tempo. Tenho problemas com quase tudo que está institucionalizado. Tenho dificuldade com as regras e as normas, até mesmo porque a construção, os fins e os meios destas são consideravelmente questionáveis. Sou problemático, sei que sou.
O sistema capistalista sempre foi um outro problema para mim. Veja bem, eu nem sabia que existia o famigerado capitalismo, mas eu sentia que havia algo de bem errado na forma com que as coisas aconteciam no mundo. Obviamente que tudo se agravou conforme fui envelhecendo. Já ouvi que me tornei um chato.
Atualmente algumas das minhas crises são por perceber que as pessoas pensam que são aquilo que compram. Por haver pessoas que pensam que podem comprar pessoas, e ainda,  por ter aquelas que veem algum lucro em se venderem. Tenho crises com o culto ao excesso em detrimento da qualidade. O consumismo de itens materiais e imateriais me tiram o sono…
Sofro quando percebo que tudo está relacionado com o quanto eu posso ganhar (financeiramente falando) e o sofrimento só aumenta quando assisto quem deixa de fazer (criar, construir, sonhar, viver…) por conta desse pensamento que apenas segue a roda do tal sistema em que vivemos.
Pretendo falar da minha relação com a arte-vida daqui em diante e espero conseguir me fazer claro no final do texto.
Já escrevi que não me considero artista e hoje entendo que parte disso é pelo meu particular temor pelo termo estar (quase) sempre carregado de pedantismo. Os rótulos quase sempre estão carregados desse ligeiro ar de superioridade que não me representam em nada. Diz-se ser algo, como se fosse um(a) deus(a). Já disse que tenho problema com aquilo que está institucionalizado? Assim sendo, dispenso as etiquetas, reconhecendo que em algumas ocasiões elas sejam necessárias para explicar, localizar, orientar… Afora isso, dispenso-as em série.
Todas (ou boa parte) das minhas experiências no campo da arte me fizeram mais humano ou como costumo dizer transumano. Em alguns casos as experiências se tornaram quase místicas. Em tantos outras situações, foram poéticos processos de curas… Ah! Eu também já disse em algumas ocasiões que só permaneço vivo por conta dessa arte indissociável da vida. É isso!
Imagino que os pensadores da arte vão ter textos bem mais interessantes que os meus, provavelmente longos manuais, repletos de fontes e citações eruditas que neguem tudo isso que estou escrevendo ou criando, artisticamente falando. Paciência, acontece…
A minha produção no campo da arte não está relacionada com o quanto eu posso ganhar de dinheiro, mas com o quanto eu posso ser transformado e transformar. As minhas criações não estão condicionadas aos editais de museus, festivais, galerias. A maioria das coisas que criei e/ou fiz foram sem apoio de instituições. Na verdade só muito recentemente é que descobri sobre os editais e o quanto mais eu conheço, menos quero participar desse esquema, eles me travam criativamente falando.
Tenho inúmeras experiências singulares no campo da arte. Todas elas me transformaram de algum modo. Eu nunca mais fui o mesmo, ainda bem.

Toda essa introdução acima – meio dura e meio confusa – é para dizer que ontem eu pude viver mais uma dessas experiências especialmente singulares. A sensação é a de ter criado uma fissura no tempo. De repente eu não era mais um corpo estranho. Foi como viver por horas em um universo paralelo. Não estava sozinho.
Sorriso e lágrimas não faltaram… Olhares sinceros, abraços fraternos, comidas deliciosas, música especial e um ar perfumado pelo aroma do amor. Percebo cada vez mais que a minha produção no campo da arte está relacionada ao quanto de amor e entrega se pode ter para concretização de uma obra. Ontem, a entrega era total… Gosto dessa arte que as vezes nos priva da visão, pois as incontidas lágrimas insistem em saltar dos olhos… Já tinha visto isso acontecer na dança, música, performance, plásticas, mas nunca na fotografia… Inumeráveis vezes chorei sozinho olhando uma foto ou outra, nunca havia visto lágrimas durante o processo de produção/criação da fotografia em si.
Nunca fiz um trabalho de fotografia-performance tão profundo ou extremamente particular como o desse último domingo e começo de segunda-feira. Não existe moeda que pague por toda a construção e vivência. Não existe, pois foi algo fora desse tempo, espaço e realidade.
A nossa única preocupação foi não ter preocupação alguma. Há algo de muito mágico nessa vida e sentir que se está próximo disso, faz toda uma diferença.

Gratidão, gratidão, gratidão…
Pri, Renan, Má e Anami… aishiteru. ❤

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