Quando a intenção é boa e perigosa…

Hoje vi circular pelo Facebook um viral escrito por um cara bacana. Já vi algumas entrevistas com ele e o acho inteligente. Também já cruzei com ele nos corridos corredores de convenções de tatuagem, guardo até uma fotografia da gente junto… Não somos amigos e nem nada, mas eu o acho um cara bacana.
Sinto que ele quis escrever um desabafo sobre a questão do preconceito. Esbarrou em alguns problemas graves do senso comum, que sei que várias pessoas que eu convivo pensam igual ou parecido.
Senti vontade então de escrever sobre essas coisas todas que habitam o imaginário comum. Talvez alguém já tenha feito isso, até melhor que eu. Mas enfim…
O texto diz não entender o fato de apenas os oprimidos terem o direito de manifestar opinião e orgulho. Fiquei imaginando, em que lugar isso acontece? Onde e quando os oprimidos têm vez? Onde e quando os oprimidos têm direito a voz?
Por outro lado fiquei imaginando os opressores manifestando suas opiniões e orgulhos, claro que me veio na cabeça Feliciano, Malafaia, Bolsonaro e etc… Pude sair do campo da imaginação e ver a coisa posta no cotidiano, ou seja, isso já acontece o tempo inteiro. Com discurso bonito e enfeitado como também o extremista e carregado… É um campo perigoso.
O texto segue falando que não entende porque é permitido existir “balada gay” e não “balada hétero”. Quem disse que não é permitido existir “balada hétero”? Elas sempre existiram.
Eu diria que a “balada gay” é uma forma de criar guetos para esses cidadãos de aparente segunda categoria, que não são aceitos em qualquer lugar. Acho que dá para gente entender um pouco a questão olhando para os guetos criados pelos nazistas. É um exemplo meio cruel,  mas a segregação social que existe contra os cidadãos LGBTT é crueldade pura.
Continuando, sendo as baladas para héteros, homossexuais não são bem vindos. Não são mesmo. Há casos que educamente são pedidos para se retirarem e há incontáveis casos de agressão física. Hoje menos por conta do ativismo LGBTT, mas eu tenho várixs amigxs que foram convidadxs a se retirarem dos tais espaços para hétero.
As tais “baladas gays” de fato são como guetos ou tendem a funcionar como tal. Acho horrendo que precise disso, ao mesmo tempo eu compreendo que seja um espaço que preserve a vida – no sentido literal – das pessoas LGBTT. Em resumo, as chamadas “baladas gays” são lugares que recebem as pessoas que são excluídas dessa sociedade opressora e heterormativa. Diga-se de passagem que apesar da etiqueta “balada gay”, os heterossexuais são bem recebidos. O contrário existe? Não, um exemplo de tantos que poderia citar, é o caso dos irmãos que estavam em um evento e foram mortos pois acharam que eles fossem gays.
Então só para deixar claro: balada para hétero não só pode como já existe. Balada gay é um campo de sobrevivência. É um gueto para excluídos.

Sobre não entender o motivo de um(a) negro(a) poder usar uma camiseta “100% negro” e um branco não poder usar uma com a frase “orgulho branco”. Na minha cabeça é tudo muito claro a diferença que cada frase sugere, mas vamos lá. Bom, primeiro que a gente vai entrar naquela questão de opressores com direito a manifestar suas opiniões e orgulhos. O Hitler manifestou suas opiniões e orgulhos, qual o saldo disso para a história da humanidade?
Depois, a gente passa a entender melhor o motivo de se defender o uso do”100% negro” ou o “black power” ou equivalente, ao passo que estudamos um pouco a história do negro no mundo ou entramos em contato com a história em construção do nosso próprio tempo. Falando do passado e não só dele, temos o processo de escravidão dos negros, já que estamos no Brasil, podemos ler sobre o daqui… Sentimos os reflexos disso até hoje é um problema que não está completamente resolvido. A gente poderia também falar de outras situações que tiveram o negro como escravo ou explorado. São tantos exemplos, tantos…
Por outro lado a frase “orgulho branco” ou “white power” é completamente questionável por essa mesma história que oprimiu o negro.

O homem ocidental, branco, heterossexual, cristão foi responsável por oprimir e aniquilar centenas de povos. Olhemos para a América – de Norte ao Sul – que foi massacrada pelos colonizadores brancos. Novamente citando Hitler, olha o que nazismo fez em nome da “superiora” raça branca.
Fico pensando, de que tanto os brancos devem se orgulhar mesmo? Pois é.

De fato as pessoas precisam rever seus conceitos. É preciso aprender a ler o mundo em que se vive e principalmente com os tantos exemplos de onde erramos no passado. Diga-se de passagem erramos muito e seguimos repetindo os mesmos erros.

Opiniões ou teorias amparadas no senso comum é um perigo constante.
Por mais que a intenção seja boa, não se deve falar – com propriedade – daquilo que não se conhece.

 

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