Periferia militarizada

Não sei se hoje aconteceu alguma coisa aqui pelo bairro. Não houve rumores, tudo aparentemente tranquilo.
Eu moro (desde sempre) na periferia e apesar de todos os estigmas, aqui é um lugar pacato. Livre de criminalidade? Não.
Livre de violência? Tão pouco. Mas ainda assim é um lugar pacato, humilde e com ares de cidade do interior.
Hoje eu estava indo pagar uma conta e no caminho vi algumas crianças falando sobre uma abordagem truculenta de militares. Achei que eles falavam de algum filme de ação, típico do cinema norte americano. Segui meu caminho.
Poucos passos à frente vi um carro grande da PM e muitos policiais fardados, roupas camufladas como soldados do exército, e portando armas diversas. No muro, uns 5 ou 6 meninos negros. A imagem em si me chocou: olhei aquilo, abaixei a minha cabeça como sinal de lamento e nos passos seguintes ouvi um assovio. Um dos soldados/policiais me chamava. Cheguei próximo dele e me foi pedido – de maneira seca mas não violenta – para encostar na parede. Não sabia exatamente como agir. O soldado me questionou o que eu tinha nas mãos, onde eu estava indo, onde eu morava… Sem deixar de lado a sua arma, que não pude identificar qual era, até mesmo pelo meu nulo conhecimento em armamentos.
Respondi as perguntas e mostrei o IPTU que eu estava indo pagar na Lotérica. Fui liberado com a mesma secura com que fui abordado. Os outros meninos ficaram lá. Fiquei pensando: será que se eu não fosse branco receberia o mesmo tratamento? Provavelmente não…
Não sei se os garotos eram suspeitos de alguma coisa. Não sei se eles eram bandidos. Não sei nada. Eu só sei que a imagem de soldados, fortemente armados, abordando jovens negros na periferia, não me agrada em nada.
Depois enquanto eu estava na fila, ainda angustiado com a experiência, vi o carro passando e pude ler que era uma tropa de Choque da PM.
Novamente abaixei a minha cabeça lamentando.
Não me agrada em nada viver em uma cidade militarizada. Não me agrada ser abordado de maneira tão vazia de humanidade, ser investigado como suspeito em potencial. Não me agrada ver tantas armas apontadas em todas as direções como se houvesse uma guerra ou coisa que o valha.
Tudo isso não  me traz sensação de segurança alguma. Quiçá me faz sentir prisioneiro de um sistema que falhou, mas que faz questão de fingir que está tudo bem.
Não convence. Armas ao vento não convencem.

Ps. A imagem usada não é do que aconteceu aqui. Mas era só para ilustrar a minha desilusão.

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