A perpetuação e validação da desigualdade e do preconceito através do humor

Fonte: Facebook

O humor “politicamente incorreto” ajuda na continuidade do preconceito? SIM, e isso foi evidenciado na tese de mestrado de Shane Rydell Triplett, da Western Carolina University (WCU):

 

Nem todos os grupos são iguais: vulnerabilidade diferencial de grupos sociais aos efeitos liberadores do preconceito do humor depreciativo

 

Resumo:

 

“Pesquisas têm mostrado que o humor sexista permite a homens expressar sexismo substituindo normas não-sexistas numa situação com uma norma de tolerância à discriminação por sexo. Nosso estudo estende esses achados testando a hipótese de que o humor depreciativo favorece a “liberação” de preconceito apenas contra os grupos para os quais as atitudes da sociedade são ambivalentes e portanto para os quais a expressão do perconceito depende de regras sociais imediatas para justificar-se (p.ex., mulheres e homossexuais). A expressão de preconceito contra grupos como os racistas é socialmente aceitável e não deve ser dependente de eventos como o humor depreciativo para se justificar. Consequentemente, o humor depreciativo deve ter pouco efeito na liberação de preconceito contra eles (os racistas). 164 participantes completaram mensurações de preconceito contra homossexuais e racistas. Os participantes leram quatro piadas depreciativas contra homossexuais, ou contra racistas, ou que contivessem nenhum conteúdo depreciativo. Em seguida, os participantes alocaram cortes de verbas para quatro organizações estudantis, incluindo uma que apoiasse agenda racista ou agenda homossexual. Os resultados apoiaram nossa hipótese. O preconceito contra homossexuais predisse a quantidade de dinheiro que os participantes cortavam para a organização homossexual em relação a outras, sob exposição de piadas anti-homossexuais mas não sob piadas neutras ou anti-racistas. Em contraste, atitudes contra racistas não predisseram diferencialmente cortes de verbas alocados à organização racista sob exposição a piadas anti-racismo, neutras ou anti-homossexuais.”

 

http://libres.uncg.edu/ir/wcu/listing.aspx?id=8070

 

Conclusão similar veio de um estudo publicado em revista científica, de Thomas Ford e colaboradores:

 

Mais que “apenas uma piada”: a função liberadora de preconceito do humor sexista

 

Resumo:

 

“Os resultados de dois experimentos apoiaram a hipótese de que, para homens sexistas, a exposição ao humor sexista pode promover a liberação comportamento do preconceito contra as mulheres. O experimento 1 demonstrou que o sexismo hostil predisse a quantidade de dinheiro que os participantes estavam dispostos a doar para uma organização de mulheres depois de ler piadas sexistas mas não depois de ler frases sexistas não-humorísticas ou piadas neutras. O experimento 2 mostrou que o sexismo hostil predisse a quantidade de dinheiro que os participantes cortavam de um financiamento a uma organização de mulheres em relação a quatro outras organizações de estudantes após a exposição a peças de comédia sexista mas não após a exposição a peças de comédia neutra. Foi percebida uma norma local de aprovação de cortes de financiamento para a organização de mulheres mediada pela relação entre sexismo hostil e discriminação contra a organização de mulheres.”

 

http://psp.sagepub.com/content/34/2/159.short

 

Conclusão: uma mártir do humor e para que serve o humor politicamente incorreto

 

“Hitler e Göring estão no alto da torre de rádio de Berlim. Hitler diz que quer fazer alguma coisa para animar o povo de Berlim. ‘Por que então você não pula?’, sugere Göring.”

 

Esta piada foi contada por Marianne Elise K.*, que trabalhava numa fábrica de munições na época da Alemanha nazista. Um colega de trabalho denunciou Marianne ao partido Nazi e ela foi executada em 1944 por ter contado a piada.

 

Esta é a função meritória do humor: desafiar os poderes injustos estabelecidos através do prazer natural do riso, que incomoda a seriedade autoritária desses poderes. É neste sentido que vale a pena um humor “politicamente incorreto”.

 

Quem se vale dessa pecha para chutar cachorro morto, ridicularizar quem já sofre preconceito da maioria na sociedade, atenta contra a memória de Marianne Elise K., pois afaga os poderes e pudores estabelecidos.

 

É fácil fazer piada machista em sociedade machista, sem desafiar o machismo. É fácil fazer piada homofóbica em sociedade homofóbica, sem desafiar a homofobia. Tão fácil que torna alguns comediantes ricos.

 

Difícil é fazer piada anti-nazista em sociedade nazista. Vida longa à memória de Marianne Elise K., que poderia até não ser tão engraçada, mas é com certeza uma mártir do humor.

 

*Fonte da informação: Livro “Heil Hitler, das schwein ist tot!”, de Rudolph Herzog.

 

Parafraseando Nelson Mandela, as pessoas não nascem odiando, aprendem a odiar. Aprendem a ter preconceito. O humor é uma faceta importante da natureza humana, pois nos convida a receber com prazer até as situações mais desconfortáveis. Mas um humor depreciativo, incorretamente chamado de humor politicamente incorreto, só tem uma função: ensino do preconceito e do ódio.

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Bibliografia sugerida:

 

Argueello, Catalina, Guillermo B. Willis, and Hugo Carretero-Dios. “The effects of social power and disparagement humor on the evaluations of subordinates.” Revista De Psicologia Social 27, no. 3 (October 2012): 323–336.

 

Diaconu-Muresan, Ada, and Mary White Stewart. “Romanian college students’ reactions to sexist humor: description and predictors.” Journal of Gender Studies 19, no. 3 (2010): 279–296. doi:10.1080/09589236.2010.494344.

 

Ferguson, Mark A., and Thomas E. Ford. “Disparagement humor: A theoretical and empirical review of psychoanalytic, superiority, and social identity theories.” Humor-International Journal of Humor Research 21, no. 3 (2008): 283–312. doi:10.1515/HUMOR.2008.014.

 

Ford, Thomas E., Christie F. Boxer, Jacob Armstrong, and Jessica R. Edel. “More Than ‘Just a Joke’: The Prejudice-Releasing Function of Sexist Humor.” Personality and Social Psychology Bulletin 34, no. 2 (February 1, 2008): 159–170. doi:10.1177/0146167207310022.

 

Hodson, Gordon, Jonathan Rush, and Cara C. MacInnis. “A Joke Is Just a Joke (Except When It Isn’t): Cavalier Humor Beliefs Facilitate the Expression of Group Dominance Motives.” Journal of Personality and Social Psychology 99, no. 4 (October 2010): 660–682. doi:10.1037/a0019627.

 

Van Laer, Koen, and Maddy Janssens. “Ethnic minority professionals’ experiences with subtle discrimination in the workplace.” Human Relations 64, no. 9 (September 2011): 1203–1227. doi:10.1177/0018726711409263.

 

Romero-Sanchez, Monica, Mercedes Duran, Hugo Carretero-Dios, Jesus L. Megias, and Miguel Moya. “Exposure to Sexist Humor and Rape Proclivity: The Moderator Effect of Aversiveness Ratings.” Journal of Interpersonal Violence 25, no. 12 (December 2010): 2339–2350. doi:10.1177/0886260509354884.

 

Samson, Andrea C., Oswald Huber, and Willibald Ruch. “Teasing, Ridiculing and the Relation to the Fear of Being Laughed at in Individuals with Asperger’s Syndrome.” Journal of Autism and Developmental Disorders 41, no. 4 (April 2011): 475–483. doi:10.1007/s10803-010-1071-2.

 

Weinstein, Netta, Holley S. Hodgins, and Elin Ostvik-White. “Humor as Aggression: Effects of Motivation on Hostility Expressed in Humor Appreciation.” Journal of Personality and Social Psychology 100, no. 6 (June 2011): 1043–1055. doi:10.1037/a0022495.

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