Entrevista sobre suspensão, body mods e sociedade

Curso: Doutorado em sociais | Universidade: Universidade de Brasília

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1-      Quem é o Thiago?
Creio que o Thiago seja um amontado de todos aqueles que passam por minha vida. É um pouco que cada um deixa e leva. É alguma coisa que está em construção constante.

2-      Como surgiu essa vontade de se modificar? De onde vem sua motivação?
Desde criança sempre fui interessado por corpos que oferecessem uma outra lógica, trouxessem novos questionamentos, novas possibilidades de existência. Acho que os quadrinhos, a ficção científica, mangás e animes me traziam esses dados e na minha cabeça era tudo fantástico. Quando adolescente entrei em contato com a contracultura, e acho que foi o momento chave em que comecei a intervir de fato no corpo. A vontade nasceu do desejo de me completar como sujeito e ao mesmo tempo da necessidade de apropriação do corpo.
3-      Você acha que essas modificações corporais trouxeram mudanças em sua relação com você mesmo, com a sociedade, família, amigos? De que forma?
Totalmente, muitas mudanças. Através das modificações corporais eu aprendi muito sobre mim e sobre a vida em sociedade. Aprendi, através da experiência, como ir contra as regras e doutrinas sociais é enfrentar violentas doses de exclusão e segregação. Aprendi o quanto tudo isso é essencial, apesar de ser um fardo quase insuportável de vez em quando.
Sinto que a minha família passou por um intenso processo de readaptação também.  Eles são cristãos e na minha infância tivemos problemas com fanatismos, digo isso para que se tenha noção de como foi problemático tentar inserir a ideia de se manipular o corpo. Muitos conflitos. rs

4-      E a sociedade com você? Trabalho, amizades, namoros, passeios a shoppings, teatro, etc.?
A sociedade não gosta de quem a enfrenta, ela tenta comê-los. Acho que já estive várias vezes sendo mastigado por ela, mas não fui devorado ainda. Talvez eu seja indigesto. rs
Já fiquei um bom tempo sem conseguir emprego por conta das body mods. Algumas empresas deixavam claro que esse era o problema e outras enfeitavam dizendo que eu não tinha o perfil da empresa. Foi um momento muito ruim da minha vida, muito triste. Eu entendia que estavam pedindo para que eu deixasse de ser eu, isso não se pede, pra ninguém.
Não percebo se o entorno fica me olhando estranho. Sei que isso acontece pois meus amigos contam que as pessoas olham.  Eu só percebo quando o assédio é gritante e direto.
Eu entendo que certas coisas – sei lá, implantes por exemplo – causem curiosidades, mas acho bem primário (infantil) o grau que estamos de lidar com esse “corpo estranho”. Acho que dá pra conhecer aquilo que não conhecemos, sem ser necessariamente indelicado, agressivo ou patético.
Eu me sinto extremamente feliz por estar fora dos padrões da sociedade, cada vez mais inclusive.

5-      E a suspensão, quando surgiu para você? Quando foi a primeira vez e porque a fez?
A primeira vez que vi algo sobre suspensão corporal foi em 1999 (talvez 98), através de uma matéria exibida pelo SBT. Lembro que vi com minha mãe e ela logo ficou cismada que eu pudesse fazer. Claro que disse que não faria. Como era algo novo, a negativa foi sincera, só não duradoura. rs
Fui pesquisando e me interessando pela prática. Fui ter a minha primeira experiência em 2005, como fruto de um processo em curso de experimentos físicos. Queria conhecer meus limites, queria conhecer mais sobre mim e foi o caminho. No momento em que estava suspenso o profissional disse que aquela não seria a minha única vez. Pois é…

6-      E a sua preparação para fazê-la? Como é? Sempre foi assim como a que eu assisti? Ou se alterou com o tempo?
Sempre gostei de estar com o corpo preparado, isto é, descansando, bom estado de saúde, bem alimentado… Desde a primeira vez sempre busquei preservar isso. Como passei a usar a suspensão dentro do campo da performance, a preparação passou a ser outra, priorizada eu diria. Hoje existe uma preparação, uma concentração, um aquecimento, um alongamento e acho que tudo isso tem um pé no meu contato com a dança. Eu sinto que preciso entrar em um lugar meu…

7-      E a sua relação com a dor? Há dor? Como controlá-la?
Não gosto de sentir dor e sou super sensível. Gostaria de ser mais forte.
Na suspensão especificamente tem a dor da perfuração e depois como eu chego no lugar que preciso estar (inside), a dor não existe. Não há uma receita única de como minar a dor. Acho que cada um deve seguir um caminho particular de descobertas.

8-      O que te estimula a se modificar e a fazer suspensões?
Tanto a body mods quanto a suspensão corporal atualmente são utilizadas por mim dentro de meus trabalhos com artes. Acho que essa já é uma mudança pontual e significante que se deu depois de anos de pesquisas e vivências.
Pensando em um sentido ou estimulante único para as duas práticas, poderia destacar a capacidade do encontro do self. Mas em suma, sinto que são estímulos distintos…  A body mods dentro um prisma mais da estética (físico) e a suspensão de transcendência (metafísico)…
9-      O que você pretende com isso? Prova algo, incentivar algo, o que?
Eu pretendo ser eu. É assim que eu sou, é dessa forma que experimento o mundo e assim sou feliz. Não quero provar nada pra ninguém ou tão pouco incentivar nada. Pensando bem, talvez incentivar que as pessoas busquem suas liberdades seja algo… Eu busco a minha e estou bem.
Quando comecei meus estudos sobre o corpo e cheguei especificamente na parte da tentativa do Estado em se apropriar do nosso corpo, fiquei chocado. Descobrir que o nosso corpo é tão pouco nosso de fato, tudo isso que eu venho fazendo ganhou outro peso e outra medida. Percebo que as modificações corporais são ferramentas de luta contra todo um sistema cultural de corpo, com um pé (ou os dois) na eugenia. Esse modelo estético ocidental, branco, heterossexual, judaico-cristão, não é e nunca foi o ideal pra mim.

10-   O que o Thiago quer para o futuro de forma geral?
Que as pessoas (eu dentro desse grupo) aprendam como viver.

11-   Você busca uma aparência idealizada?
Ao passo que desenho um projeto para alterar determinada parte do meu corpo, sinto que idealizo sim. Não aos moldes tradicionais de se parecer com algo ou com alguém, mas no sentido de projeto, design e etc.

12-   Você acha que o corpo é obsoleto, descartável? Por que?
Completamente obsoleto. Acho muito pertinente a teoria de Stelarc sobre essa questão. O corpo natural tem se mostrado cada vez mais obsoleto e igualmente dependente de extensões artificiais. É duro para os seres humanos ouvirem isso, é uma raça que se super valoriza o tempo todo. Desculpa, mas são os fatos, o corpo por si só não basta.
Eu jamais poderia ter outra posição, eu preciso de óculos para poder enxergar (tenho ceratocone), uso bombinha todos os dias para poder respirar (coisas de asmáticos) e olha que estou citando exemplos simples e pequenos.
A internet e as redes sociais também “colaboraram” nesse sentido. Hoje as pessoas são mais avatares do que corpos físicos. São processos.

13-   O que você acha que pode se feito para a prática de modificações corporais extremas e da suspensão ser aceita socialmente assim como aconteceu com as tatuagens e os piercings?
Educação e informação, de todos os lados e principalmente dentro da própria comunidade body mods. Como pesquisador, atualmente eu sinto que a comunidade body mods está passando por vários problemas. Na verdade são problemas que existem faz tempo, mas com as redes sociais, tem tomado proporções gigantescas e ao meu ver, passando do limite do aceitável. Por exemplo, um dos grandes problemas é que não há reconhecimento de classe e digo não entre entusiastas, mas entre os próprios profissionais. Com isso surgem pequenos blocos. São pequenos grupos que se formam e que defendem uma postura e que muitas vezes vão gerar um antagonismo com outro grupo que surge. O detalhe é que no meio disso tudo, estão questões realmente essenciais de segurança, legalidade, mas que acaba perdendo a credibilidade ou foco.
O pior é que nessa brincadeira surge políticos como o senhor Campos Machado (PTB), lança uma lei que proíbe aplicação de piercing e tatuagens em menores e ninguém contesta. Gosto de mencionar esse fato, pois a lei é de 1997, e não há movimentação alguma pra derrubada dela. Alguns estúdios seguem a tal lei e outros tantos – como todo mundo bem sabe – simplesmente a ignora, o que coloca esse grupo na ilegalidade.
Veja bem, não dá para mudar muita coisa fora da comunidade, se dentro dela é tudo tão superficial.

14-   Você acha que há um modelo de corpo ideal disseminado socialmente? Qual seria esse modelo?
Tem que ser branco, magro, heterossexual e cristão. Coisa de Ariano…

15-   Você já se sentiu ou já foi discriminado por causa de sua aparência?
Já, como eu disse no episódio em que eu não conseguia me recolocar no mercado de trabalho em 2006. Eu tinha know-how, eu tinha currículo, eu tinha competência e nas dinâmicas eu via pessoas que tinham um português assustador e que eram aprovadas, enquanto eu não. Menciono o problema com o português, pois eram vagas para central de atendimento, ou seja, saber falar bem é o mínimo. Supostamente deveria ser. rs

Tive os problemas em casa também, foram exemplos de preconceito e talvez os mais complicados de se enfrentar…

Quando eu era adolescente e comecei a me modificar, sentia que as pessoas não se sentavam ao meu lado no ônibus… Tinha as beatas que passavam por mim e se benziam…
Tinha a galera que ficava me chamando de “viado” e aí a gente entra em outra escala do preconceito, o estético e o sexual.
Nessas aventuras eu descobri que o ser humano é desprezível em algumas situações.

16-   É difícil ser o Thiago? Há diferenças entre o Thiago Soares e o T. Angel? Me conte como surgiu o “apelido” T. Angel.
É fácil ser o Thiago, só não é legal o tempo todo, tenho umas crises pesadas de vez em quando. Só o Daemon me aguenta. Rs

Não há diferença entre o Thiago Soares e o T. Angel, acho que isso se dá justamente por não haver muita separação da minha produção artística com a minha vida. Tudo está muito em sintonia e acontece de forma dissociável. Eu até tentei e tento separar, mas não consigo. Pontualmente com a performance, não crio personagens para as coisas que faço, eu entro em estados psico e físicos de fato, então é o Thiago Soares e o T. Angel ali.
Gosto do pseudônimo T. Angel, me remete ao mundo do fantástico e da fantasia, me inspira mais liberdade, mais poesia… Thiago Soares já soa mais sério e não consigo me ver com essa sobriedade… Tenho muita dificuldade.
O T. Angel surgiu quando comecei a escrever algumas coisas, desenhar outras e queria usar um nome que não o meu para assinar tudo isso…  Eu tenho uma mitologia muita particular e familiar com a coisa do anjo e acho que não poderia ter escolhido um nome melhor. Eu tenho muita fresca na memória a imagem de uma queda do céu e junto com isso alguns contos de família em que eu narrava a minha chegada na Terra através de uma queda… Todas essas memórias viraram o T. Angel como nome e fazem parte daquilo que sou.

17-   O que os corpos modificados ao extremo trazem ou mostram para a sociedade?
Mostram que existe uma infinidade de possibilidades de se relacionar com o belo. Que as pessoas podem ser felizes sem seguir os padrões majoritários… Que as revistas de moda mentem, que a igreja mente, que as novelas mentem e que a maioria dessas empresas todas, tentam te vender a ideia absurda de que você é feio.
As modificações extremas nos ensinam que a diversidade é uma das coisas mais incríveis do universo e que só existimos por conta dessas relações entre seres plurais.

18-   Você acha que há uma ordem social rígida que desestimula essas práticas?
Sim, principalmente porque as raízes de algumas técnicas estão em rituais indígenas e africanos. Nesse sentido essas técnicas representam um dos maiores legados de resistência cultural humana.
A tentativa de dominação dos corpos é política, falei disso…
19-   E pra terminar, você se sente inserido na sociedade a que pertence?
Sinceramente não, nunca me senti e digo isso não só por ter body mods.
Sabendo como essa sociedade se mostra doente, eu me sinto um sortudo por não me sentir parte dela.  Estou fora do jogo e estou muito bem obrigado!

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