Pensamentos sobre “Marina Abramovic – The artist is present”

Isso não é uma crítica e tão pouco uma resenha sobre o filme-documentário “The artist is present“.
Isso é apenas um texto sobre impressões e sentimentos que uma pessoa teve sobre o filme, sem grandes pretensões.
A pessoa, eu no caso, precisa escrever pra não perder, não esquecer… Eu poderia usar um pedaço do papel ou fazer anotações em um caderno qualquer, mas não quis. Escolho aqui e novamente digo, principalmente para os demasiados artistas-cultos-intelectuais-pedantes, são apenas pensamentos meus e nada mais.

Não sei em que ponto o meu “artista” se separa do meu “eu”. Penso que sou uma unidade e assim o sendo, tenho andado desgostoso (mais que o normal) com o meio da arte (ou deveria dizer do meio cultural num geral?). Ver esse filme foi bom, muito bom, e está me ajudando a resolver algumas neuroses, mas fiquei (mais) perturbado e isso precisa ser dito. rs

Finalmente tive a oportunidade de ver o documentário de Marina Abramovic. Acompanhei entusiasmadamente as notícias que circularam enquanto o filme não era lançado.
Logo nos primeiros minutos do longa, fiquei impressionado com a beleza física da artista. Com os seus 63 anos (na época em que foi filmado) a mulher esbanjava uma beleza atemporal. Marina se tornou uma diva e não foi fácil pra mim assimilar o fato de haver uma artista da performance que tenha ganhado o status de diva. Também pudera, ela é a primeira grande diva-performer.  Okej, ainda me soa horrível essa ideia.

Entrando no filme, a levada reality show de canal pago não me agradou muito. Assim como não me agradou não haver pintos no vídeo. Mesma as bocetas eram mostradas com bastante cuidado. Por sorte as bundas e os seios apareceram livres, ufa. Entendo que é um documentário para ser vendido (em alta escala), mas poxa, olhem para a obra da artista e entrem no contexto da arte da performance ou da arte contemporânea que seja.

Agora falando da obra da artista, sensacional poder ver os vídeos das ações dos anos que já ficaram para trás. Ela e o Ulay eram uma dupla intensa, senti uma vontade absurda de ser capaz de voltar no tempo, precisava ver aquilo de perto.

Ulay, falando nele, fiquei um bocado apaixonado por sua figura. O efeito do tempo se fez presente em suas rugas, mas o olhar vivo, misterioso e triste o tornam um homem de peculiar beleza. Nunca tinha visto ele falar muito e tão pouco tinha visto vídeos atuais dele. Fiquei desejando que fizessem um documentário com esse artista, creio que ele tem muito pra dizer e ensinar. Queria mais de Ulay!

Marina e Ulay.
Uma dupla de performers que carregam em suas histórias a intensidade visceral da arte/vida. Já se tornaram imortais, ambos.
Um casal que beira os contos de fadas, sem nenhuma idealização romantizada de que vivessem um relacionamento tranquilo com cara de comercial de manteiga. Muito pelo contrário e é isso que me fascina. Ao mesmo tempo, o documentário nos traz um carinho muito genuíno e doce entre ambos.
Eu já os vi se estapeando, se chocando violentamente um contra o outro, arriscando a vida literalmente e ultrapassando juntos os seus limites humanos, tudo isso mexeu um bocado comigo ao longo dos últimos anos. De repente, durante o filme, no momento em que Marina estava performando no MoMA, Ulay é o seu público (não mais um, ele nunca seria apenas mais um). No momento em que há a troca de olhar entre ambos, cai em um choro desenfreado. As lágrimas escorriam sem parar pelo meu rosto, o filme seguia e os olhos dos dois diziam: aqui estamos com o peso daquilo que construímos.
Nunca pensei que fosse me sensibilizar tanto com um gesto tão simples como uma troca de olhar e um encontro de mãos. Desaguei.

Depois de tanto chorar, preciso escrever sobre a parte que me causa surtos. E propositalmente publiquei anteriormente o Manifesto do Artista escrito por Marina (mais ou menos) em 2007, que indico muito a leitura.
A minha fase atual é de profundo questionamento sobre o consumismo na sociedade e a coisificação de tudo. Quando digo profundo questionamento, entenda que me sinto beirando a loucura como já disse aqui antes. Quando assim estou, preciso de isolamento parcial ou completo. Eis que vem este filme para me virar e revirar do avesso.
Lindo ver e conhecer mais sobre a obra de Marina… Mas…
O que é aquilo que eu vi? Seguranças e mais seguranças, auxiliar blasé com cara de poucos amigos (clichê insuportável)… Filas infinitas somadas de um total desespero para chegar até a artista que estava presente. Achei horroroso e assustador. Fui remetido as filas e igual desespero das pessoas que querem aproveitar saldões ou o lançamento de um novo super produto, tipo do que aconteceu recentemente (e que vai se repetir por muito tempo ainda) com o lançamento do novo super-blaster-ultra produto da Aple. Marina Abramovic se tornora um produto para atender a necessidade imediatista do consumismo contemporâneo. A própria formatação de seu documentário reafirma essa minha sensação. Repito: cadê os pintos?
Aqui em São Paulo tivemos um frenesi parecido com a exposição dos impressionistas no CCBB, antes deles, a loucura com o fantástico mundo de Escher. Muita preguiça desses comportamentos, fujo três léguas e sem usar a minha bombinha.

Não estou dizendo que esses artistas – o que inclui Marina – não mereçam reconhecimento e não possam colher os louros de suas respectivas contribuições para a história da arte. Não é nada disso. Eu só sinto que muito do barulho que se faz é declaradamente para atender um objetivo que pra mim é negativo e completamente equivocado. Mais um exemplo, ver aquela criança que se ajoelha ao chão após ver a performance, sequencialmente acompanhado do choro da mãe dizendo que “estava muito orgulhosa” me soa terrivelmente vazio de sentido. Ver a performance art nesse esquema de consumismo me dilacerou. Me fez pensar nxs burguesxs que circulam pelas livrarias de São Paulo comprando inúmeros livros que nunca vão ler. Quiçá servirão como enfeite de sala, biblioteca ou sabe-se lá o que… Pensei também nxs super artistas-cultxs-intelectuais-pedantes que vão aos espetáculos/apresentações/exposições pra fazer cara de blasé e detestarem tudo. Justamente porque nessa lógica de consumismo tudo é facilmente descartável e detestável.

Será que tudo caminha pra isso? Pra se tornarem  “mais uma coisa” que as pessoas podem comprar e que daqui alguns minutos se tornar desprovida de valor? Espero que não.

Pra finalizar, digo: Marina Abramovic, eu te amo por tudo o que você fez pela arte, especificamente a arte da performance. Eu a respeito e guardo gigantesca admiração por tudo que vi e li sobre você, mas jamais, nunca eu passaria dias em uma fila pra te ver. Tão pouco correria enlouquecidamente, atropelando pessoas e o pouco de dignidade que me resta. Talvez eu nunca tenha a oportunidade de cruzar contigo no plano real e mesmo assim, nessa relação unilateral, eu a conservo em meu coração. Te respeito tanto que seria impossível pensar em agir de outra forma.
Gratidão.

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