Quando o sol brilha mais forte a sombra é mais escura

Por Thiago Soares
Festival Contemporâneo de Dança 2011
Projeto 7X7

 

Quando o sol brilha mais forte a sombra é mais escura

 

“Se você quiser experimentar a revelação quase mística de um Brasil arcaico e assustador vá ver Marcelo Gabriel. Seu sangue vertido purifica, como nos sacrifícios antigos. Se você, assim como eu, está cheio de viver num país de cafajestes, vá ver Marcelo Gabriel em cena.”
João Silvério Trevisan (Escritor e ativista LGBT)

 

Eu poderia falar dos pliés e piqués ou até mesmo de quantos giros Marcelo Gabriel utiliza em cena, mas eu prefiro mesmo é falar dos giros que ele dá naqueles que estão lá sentados o assistindo: ele nos revira do avesso. Nesse sentido vou de encontro com o pensamento da saudosa Pina Bausch, quando lindamente afirmou que não se interessava em como as pessoas se movem, “mas o que as movem.”

Extremamente provocativo, Marcelo Gabriel faz de seu público parte ativa de seu espetáculo. Não há passividade nem naqueles que estão sentados mais distantes, estes são atingidos por suas expressões profundas ou por um punhado de pipocas atiradas de forma desordenada pelo artista. Ninguém escapa da sombra.

Domingo gelado atípico da primavera brasileira. Sala do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil inteira cheia de fumaça e olhares ansiosos por um dos últimos espetáculos do Festival Contemporâneo de Dança 2011. De uma completa escuridão surge aos poucos a figura de Marcelo Gabriel. Um ar sombrio nos introduz naquilo que nos transformaria, mesmo que a priori não soubéssemos ainda.

O espetáculo “Quando o sol brilha mais forte a sombra é mais escura”, solo do artista Marcelo Gabriel, trata sobre o retorno das ideologias nazi-fascistas no mundo moderno, regresso este inserido pela indústria da moda, na política e na linguagem contemporânea. Muitas vezes disfarçado de um discurso libertário ou falsamente democrático e tantas outras, declaradamente fascista – a exemplo de Bolsonaro -, ainda que a massa não perceba ou prefira fingir que não vê.

Utilizando as palavras da crítica de dança Helena Katz, cabe aqui fazermos uma breve apresentação do artista em questão:

 

“No seu corpo já há uma síntese poderosa entre pantomima de balé clássico, mímica, teatro de marionetes, butoh, danças populares e urbanas que os textos que fala já podem desaparecer, daqui para a frente. A agressividade, a contestação, o engajamento das suas palavras de ordem encontram sua melhor materialidade naquele jeito de dançar. É absolutamente genial”
(Estado de São Paulo, 05 Dezembro de 1996.)

 

A crítica acima mencionada foi de um outro trabalho (O Nervo da Flor de Aço), assim como em outro tempo, todavia se faz relevante ainda hoje e expressa muito bem o tipo de artista que Marcelo Gabriel é: ele é um homem que fala – ou berra pelo olhar – sobre as contradições de seu tempo. Os anos se passaram e seu engajamento, contestação e agressividade só se firmaram. Nesse sentido vemos um comprometimento do artista com sua obra, Marcelo Gabriel não se deixou corromper ou tão pouco se tornou cego e ele está ciente dessa sua postura como artista, como mostra esse fragmento de uma recente entrevista:

 

“É um trabalho que dialoga com a realidade. Não é uma jogada de marketing. Não respeito artistas  que constroem carreira baseada em jogos de poder, ego… Hoje as pessoas em geral querem ganhar muito dinheiro e ficar famosas e o trabalho em si não tem conteúdo nenhum. Aliás, transpondo esta discussão a um nível social, a nova geração em geral esta bastante satisfeita com modelos que lhe transmitam segurança, que não desestabilizem, que não questionem. Esta anemia estética é sintoma cabal de gerações pós-HIV.”
Marcelo Gabriel[1]

 
Assim sendo, os seus trabalhos ainda apontam o que há de errado no mundo, como este em questão que nos revira sem pedir licença.

Sim, Marcelo Gabriel é realmente genial!

Genialidade esta que vem iluminando os mais diversos palcos do mundo e as mais variadas cabeças desde a década de 80. Brilhantismo particular desse artista mineiro, que o possibilitou ser premiado em 1995 pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte – por melhor concepção com o espetáculo “O Estábulo de luxo” e no ano seguinte, também pela Associação Paulista de Críticos de Arte, com melhor interpretação pelo espetáculo “O nervo da flor de aço“.

Em “Quando o sol brilha mais forte a sombra é mais escura”, o artista busca discutir a introjeção do pensamento nazi-fascista nos oprimidos da sociedade contemporânea e como estes articulam os seus discursos infectados por essas ideologias que perseguiram, torturaram e mataram milhares de seres humanos em meados do século XX.

Casando dança, texto e vídeo o artista nos mostra um cenário daquilo que está bem embaixo dos nossos narizes e nos faz sair da paixão narcísica umbilical: o mundo vai além do nosso próprio umbigo.

Quando Marcelo Gabriel retira um sujeito da plateia, sobe com ele ao palco e o veste com uma máscara a sua semelhança, nos dá uma certa curiosidade acerca do que viria a seguir… Eis que uma marcha nupcial entra em cena, assim como Gabriel carregando uma rosa branca e carregado de caras e bocas irônicas, no mínimo satirizando a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um beijo e a cena acaba. Alguns sorrisos desconcertados escapam das bocas dos espectadores. Marcelo Gabriel com sua arte satírica brinca o tempo inteiro com o público.

Quando usa o vídeo mescla imagens do abatimento de animais, com modelos anoréxicas e acrescenta as vítimas do nazismo durante a segunda guerra. Intercala as imagens denunciando as crueldades que rondam a evolução da sociedade ocidental e como o título sugere, o sol pode aparentar brilhar mais forte, mas a sombra é muito, demasiadamente escura.

Como verbalizar um espetáculo que é um ato político de alguém que definitivamente não está em cima do muro? Talvez a melhor forma fosse falar que acima de tudo é um trabalho que versa com a liberdade de ser. Grosso modo, anti-totalitarismo, contra os silenciamentos e igualmente aos estigmas e preconceitos sociais, culturais e religiosos. Avesso ao especismo, sexismo e todas as distorções de valores que se construíram historicamente no mundo pré-pós-moderno, assim é, ou melhor dizer, assim são os espetáculos do fundador da companhia Dança Burra de dança. Definitivamente é um artista que sabe o que está dizendo e o faz com maestria.

Mas não se engane pensando que é um espetáculo inteiro denso, muito pelo contrário, assim como mencionamos os sorrisos desconcertados, também ouvimos gargalhadas nada tímidas e que enchiam o teatro. Fosse pela ironia brutal de partes da coreografia ou até mesmo com a (de)composição da freira em cena, personagem este trazido pelo artista como provocação à pseudo laicidade do Estado.

As interações entre público e artista não cessam, o palco em si é apenas um lugar de passagem, todo o teatro é ocupado pelo corpo do ator, bailarino, performer, ativista ou como você melhor preferir denominar. Dentre as interações destacaria a cena em que pessoas são retiradas do conforto de suas cadeiras e enroladas em fita adesiva, compondo um cenário de carne agitada.  A pulsação é acelerada e misturada com o barulho rasgado da fita que gruda mãos, braços, corpos… Até o momento em que se ouve as palavras de Marcelo Gabriel: “Pode voltar gente…”

Não Marcelo Gabriel, não queremos voltar para o zona de conforto do status quo. Mas sabemos que é preciso voltar para vida que há além da caixa preta e ao fazermos – pela necessidade do regresso -, voltamos diferentes de quando ali entramos.

Uma porção de aplausos sinceros da voz que não é suficiente para agradecer o que Marcelo Gabriel nos dá, faz com que despertemos de um singelo transe.
Deixamos as cascas daqueles “eus” antigos e as percepções se tornam mais vibrantes. Uma semente é plantada no mais profundo do ser, não há volta.


[1] Disponível em: http://frrrkguys.com/entrevista-com-marcelo-gabriel/. Acesso em: 01.12.2011

*Escrito originalmente para o Projeto 7X7

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