Sair do marasmo é se perder de si?

Primeiro dia de aula.
Cheguei pra deixar um documento e faltava professor, logo fui encaixado e jogado na “sela dos leões”. Sem me preparar ou sem estar preparado.
Ok, por mais que eu tenha me preparado durante a graduação e sei que para alguns isso já seria mais que suficiente, pra mim não, precisava de algo a mais para me sentir menos cru ao entrar na sala. Acho que isso é uma coisa minha que vem da performance ou das leituras do yoga, de respeitar o corpo e deixá-lo no estado necessário pra determinada função.

Assumi aulas das sextas séries. Toda sala a mesma coisa, exceto por bem pontuais nuances, o caos estava instalado. Assustador!

Salas de aula sujas e alunos que não ouvem, não se sentam, não querem saber…
As tentativas de aulas, todas um fiasco, foram pra tentar dizer quem eu era e o que eu estava fazendo lá.   Como eu disse: fiasco!
Na terceira sala era eu que me questionava sobre estar ali. Quem eu era? Onde eu estava?

Não gosto de gritar e acho que as coisas que rodeiam a educação não devam se resolver dessa forma. Tive que gritar, ao ponto de perceber que a minha voz estava partindo. Um atentado contra mim mesmo.

Tive que ameaçar, chantagear, amedrontar… Tudo aquilo que eu acho nefasto em uma relação aluno e professor, mas não restaram muitas saídas. Que fiasco.

Fui questionado por muitos alunos se eu acreditava em Deus. Incrível a preocupação deles com a questão do Deus cristão, o que também me foi meio assustador. A igreja evangélica está fazendo lavagem cerebral nas camadas mais pobres da sociedade. Não vou nem comentar sobre as questões de bullying ou mais especificamente homofobia (não contra mim, mas instaurado nos alunos). A frase que ficava em minha cabeça era: quer ter medo do futuro, passe um dia em uma escola pública.

Acabou a minha missão do dia, eu me sentia atordoado e feliz por ter acabado. Por sorte o ônibus demorou pra passar e pude me refazer. Sim, me desfiz inteiro.

Cheguei em casa e infelizmente não conseguia fingir o orgasmo de ter tido um dia fenomenal. Não sei mentir e talvez isso soe como fraqueza.
Tive que ouvir “ao menos você está ganhando dinheiro”, “você teve um dia diferente, saiu do marasmo” e outras coisas do tipo. Obviamente denota-se que não se conhece nada das vezes que “sai do marasmo” e que tive dias tão felizes, mas tão felizes que eu chorei feito criança.
A vontade ontem era de chorar de desgosto, desilusão, medo, muito medo…
Deitei na minha cama e nela fiquei até agora tentando entender tudo isso. Comecei  a sentir muitas dores musculares, comparadas aos primeiros dias de academia e isso é tensão, somatização… Tive que tomar uma ducha quente pra ver se melhorava… Nada.

Agora eu fico com essa sensação patética de me sentir mais perdedor do que o comum. Pensando com frio na barriga do que irei encontrar hoje…
Ontem eu não fui professor, fui uma babá que cuidou de salas de aulas evitando que os alunos se matassem.
Tudo um grande e infinito fiasco!

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