Bernardo Paz e o pavor da arte moderna

Tenho MUITA vontade de ir conhecer Inhotim. Assim que as minhas condições financeiras melhorarem, eu irei!

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Visionário e destemido, o mentor de Inhotim, Bernardo Paz, busca na arte contemporânea uma forma de educar

Para Bernardo Paz, a caminhada da mineração para a arte foi árdua. Empresário self made, exportando desde os anos 80 para a China – “o partido comunista chinês entrou de sócio e me deu US$ 10 milhões em 1986” –, o idealizador de Inhotim conta que chegou a ter 39 empresas, nove mil funcionários e custos baixíssimos. O Brasil mudou, seu grupo entrou em processo difícil e, sem apoio do BNDES, “eu tinha oficial de Justiça na minha porta todo dia. Era um inferno a minha vida na década de 90”. Paz esclarece que, no auge da crise, entre pagar impostos ou funcionários, optou por seus empregados.E acabou tendo que entrar no Refis.

O mineiro só respirou melhor em 2000, com a alta do preço do minério. Hoje, sua Itaminas fatura cerca de R$ 600 milhões por ano, e ele transfere praticamente tudo o que ganha para Inhotim. “Isto é a minha vida”, diz o homem que, não sabendo ser impossível, foi lá e fez.

Paz só concordou em dar entrevista depois que a colunista conhecesse o parque de 300 mil metros quadrados, ao lado da cidade de Brumadinho em Minas. A chegada é indescritível, tamanha a harmonia entre os projetos arquitetônico e de jardinagem. Ao se percorrer as alamedas projetadas inicialmente por Burle Marx, esbarra-se em pavilhões gigantes que nada devem a qualquer museu no mundo. Ele não revela quanto enterrou ali, mas há quem estime mais de R$ 500 milhões. Nunca teve ajuda de governos. No aguardo da cobiçada obra de Anish Kapoor – o artista indiano está desenhando algo especial para lá –, Paz está hoje empenhado em montar um complexo imobiliário que possa dar sustentabilidade à sua singular criação. Ele abrange desde hotéis a até um aeroporto. A mineradora hoje mantém Inhotim praticamente sozinha, mas seu criador quer perpetuá-lo. E começa a contar com apoio de empresas do porte do Itaú, Vale, Votorantim e Vivo.
A seguir, os principais trechos da conversa com a coluna.

Como você começou a se interessar por arte?
Eu comprava obras de arte moderna. Hoje, tenho pavor de arte moderna. Vou tentar resumir. Antes da fotografia, arte era muito importante, era a única forma de você mostrar aos outros os lugares, os acontecimentos, as pessoas. E era muito controlada pelos ricos, pelos reis, pela Igreja.

Eram retratos mesmo.
Sim, inclusive de lugares, que você jamais veria não fosse por meio da pintura. Você nem saberia como era o rosto de uma pessoa. Imortalizava-se por meio da pintura. Veio a fotografia, e o modernismo passou a ser uma fuga da fotografia. O quadro não tinha mais sentido em si mesmo ou passou a ter sentido só para os gênios que tentavam traços de mulheres deformadas, cubismos e outras coisas mais, fugindo da fotografia. Mas arte, para mim, sempre foi educação. Foi e é.

E como a arte contemporânea pode ser educativa?
Agora nós vamos chegar lá. A arte passou por cem anos em que não se transformou em processo educativo nem cultural. Quem era Picasso? Um devasso que gostava de mercado, gostava de comércio, ia à galeria e perguntava qual quadro estava vendendo mais. Aí, fazia mais dez. Assim foi a arte moderna. Não ensinou nada a ninguém.

Até artistas como Gauguin você inclui nessa lista?
Gauguin é uma pessoa que, de alguma forma, me traz simpatia. É um homem que viajou para o Taiti, sofreu o diabo para pintar aquelas mulheres maravilhosas, morreu de sífilis. Mas era um homem entregue à arte, como foi Van Gogh. São pessoas em que o sangue aparece mais do que a obra.

Michelangelo você também acha comercial?
Não, espera aí, Michelangelo é outra história. Michelangelo era outro momento, o Renascimento, era um grande artista. Agora, os modernistas não têm nada a ver, não têm sentido. Como você educa uma criança? Esse amarelo, só esse artista pintava esse amarelo. Justifica? A criança aprendeu o quê? Que um amarelo é diferente de outro amarelo? Olha esse azul, só Cézanne pintava esse azul. Pelo amor de Deus. Cézanne tem uma história bonita, foi para o mar, foi pintar a claridade, deixou uma marca. Mas como um azul diferente de outro azul educa uma criança? Então, um monte de teóricos da arte moderna falam palavras difíceis, mas não dizem nada.

A que você atribui o sucesso dessa gente, então?
Foi a única arte plástica que existiu do período da fotografia para cá. Na fuga da fotografia, eles partiram para essa arte da deformação da pessoa, para a arte abstrata e para uma série de artes que não criavam emoção. Às vezes, um quadro enorme com uma paisagem maravilhosa dá até vontade de embarcar lá dentro. Mas isso era muito difícil, eram mais os clássicos. Já essa arte deformante, essa arte abstrata, o que isso trouxe de benefício para a sociedade, a não ser para alguns ricos que querem mostrar que têm em casa um quadro que custou US$ 20 milhões? Vai criar polêmica com isso.Manda à m… as pessoas. Aí, entrou Duchamp, primeiro exemplar da arte contemporânea. Entrou com uma curiosidade, a arte passou a ser uma curiosidade. E, da curiosidade, ela passou à crítica. Hoje, toda a arte contemporânea é crítica. Em todos os sentidos: crítica na ecologia, na religião, na situação política, nas questões sociais. Ela exalta os benefícios criados, critica e destrói a sociedade atual, tentando criar uma sociedade melhor. Você passa por Inhotim e entra no Através. O que é o Através? Uma simplificação das dificuldades da vida. Você pisa em cacos de vidro, vai atravessando um monte de obstáculos para chegar ao outro lado. O que significa isso? Você enxerga o outro lado, mas não vai reto.

Você tem o Hélio Oiticica em Inhotim. Ele educa?
O Hélio criou a arte interativa, a alegria, uma arte em que as pessoas participam daquele processo artístico. Essa interatividade do artista com a sociedade…

Você acha que educa?
Totalmente. Uma criança que vai a Inhotim vibra mais do que um adulto. Agora, entra com ela no MoMA. A criança quer ir embora 15 minutos depois, ela não suporta. E o MoMA é um museu extraordinário, criado por pessoas muito inteligentes, de artistas extraordinários. Mas a arte contemporânea não funciona no MoMA, porque ela exige espaços muito grandes, que não cabem dentro de um andar.

Foi por isso que você criou Inhotim? Por causa do espaço?
Foi intuitivo, percebi que a arte contemporânea exigia isso e chamei os artistas para pensarem seus sonhos. E eles colocaram esses sonhos lá. Eu fiz este jardim sem sentido, só era belo. Comecei, então, a construir alguns pavilhões de arte – que passaram a ser visitados por um público diferenciado, que tomou um susto com o que estava sendo feito. Foi a partir dessa reação que comecei a observar esses visitantes mais atentamente, a ver os olhos brilharem. Pensei: estou certo, o caminho é esse. O público está sendo educado. E qual era esse público? Classe média alta.

E como se deu o start do projeto de Inhotim?
Numa conversa com o Tunga, ele me falou: esquece o modernismo, porque a verdade está na arte contemporânea. Aí, sim, você saiu da fotografia; aí, sim, você não pode ser repetido, não é mais uma cultura.

Qual foi o empurrão?
Foi loucura. Não me pergunte, porque nem eu sei. Fui fazendo. Eu nasci e sofria, a cada dia da vida, porque não era do tamanho que queria ser. Cada dia que passa, hoje, eu sofro, porque quero ser maior do que fui ontem. Esse processo é extremamente angustiante.

Mas maior em que sentido?
Você tem de pensar grande a vida toda. O que é Inhotim hoje? O que era Inhotim há dez anos? Utopia que virou realidade? Inhotim está de pé. E, além de curadores do mundo inteiro, que aprendem no parque o que é arte contemporânea, temos também cientistas de todos os cantos do planeta nos nossos laboratórios. Fazem desde pesquisa de genoma até pesquisa biológica. A folha de alface, por exemplo, te dá 30% de nutrientes. Mas a biologia propicia que você aumente isso para 70% de nutrientes. Vamos poder alimentar o mundo por meio do processo biológico. Dizem que não temos terra suficiente para plantar e alimentar todos os que estão nascendo. Mentira, a alimentação virá da concentração de nutrientes numa mesma planta. Você vai comer menos e se alimentar mais.

Você diria que o artista é um esquizofrênico que deu certo?
O artista mora dentro do umbigo dele, é ensimesmado, acha que é o melhor do mundo e ponto final. Com alguns, você consegue conversar, são pessoas facílimas de trocar ideias, inteligentíssimas em relação à humanidade, ao mundo. O artista, entretanto, não é importante pelo que é, mas, sim, pelo que faz. Então, normalmente, o artista é insuportável, mas faz coisas extraordinárias. Numa análise geral, você vai encontrar mais neurônios nesse pessoal, eles sabem mais. Agora, sabem para eles, interpretam a vida para eles e jogam para fora o sentimento por meio de suas obras.

Você se considera um artista?
Não. O que eu sou? Já disse uma vez: sou uma pessoa que está tentando alcançar alguma coisa o tempo todo. Isso tem a ver com gente que faz escalada, alpinismo.

É um insatisfeito?
Sempre insatisfeito, sempre angustiado, sempre ansioso, sempre deprimido. Minha vida é um inferno. Eu olho para o que ainda tenho de fazer na vida e vejo uma trilha no meio, que vai dar em um túmulo. Não consigo enxergar essa trilha com um céu aberto, cheio de alegria e um horizonte belíssimo no final. Eu vejo um túmulo, porque não há outra alternativa para mim. Não existe essa outra alternativa, porque minha cabeça não para. Isso me irrita profundamente, me faz tomar remédios demais para dormir, remédios demais para acordar, remédio para o coração, remédio para veia e assim por diante.

Mas como se sente um artista? Não é assim?
O problema do artista é que ele é egoísta, o artista pensa nele, não pensa nos outros, não pensa nas pessoas. Nem sabe que existem outros. Só sabe que existe ele. Mora dentro do umbigo dele, não enxerga nada além do umbigo. No meu caso, é diferente, porque eu não penso em outra coisa a não ser nas pessoas. A gente vive da perspectiva do sonho, da realização. Quer dizer, da tentativa da realização, porque a realização já é passado.

Você é feliz?
Acho muito difícil ser feliz, porque tenho de pensar nas outras pessoas. O burro pensa mais nele do que nos outros, o inteligente pensa mais nos outros do que em si. A diferença é essa. O que é a verdade na vida, meu Deus? A verdade na vida é que só a vida é importante. Por que o ser humano destrói a vida?

Você faz análise?
Fiz durante muitos anos, mas nem ligo para isso. Minha análise era conversar com o cara para não ficar maluco. Meu analista era psiquiatra de hospital de doido, eu gostava desse tipo de gente. Tem 80 anos, hoje; passei 30 com ele. Se você está desesperado no seu dia a dia, tem de procurar alguém que te ajude a achar a solução, para que possa sair lá na frente e abrir outra janela.

Qual sua opinião sobre o ser humano?
Olha, eu não posso desacreditar do ser humano. A formação do ser humano é formação animal, então essa formação animal era irracional e foi se tornando racional, foram se formando tribos. Quando dois grupos de leões se encontram, um mata o outro. A Europa era uma série de tribos, cada país daqueles era formado por 30, 40 tribos. Elas foram se juntando, uma foi matando a outra. Ainda há 27 países que lutam entre si – e dentro de cada país, tribos que brigam umas contra as outras. Qual a razão disso? O que isso traz de benefício? É o poder pelo poder.

Como você vê Inhotim daqui a dez anos?
Não vejo Inhotim daqui a dez anos. Faço questão de ver Inhotim daqui a mil anos.

Não dá para ser um pouquinho mais perto? Cem anos?
Não, não dá. Porque, quando você trabalha com educação e cultura, tem de imaginar milhares de anos. Não adianta, cultura é um processo que avança, não pode parar.
Via Estadão e o amigo Arthur Moreau

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