Entrevista sobre performance, frrrk guys, corpo e gênero

Curso: Jornalismo
Universidade: PUC – Campinas

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– Fale um pouco sobre os seus projetos: você promove intervenções artísticas e escreve sobre modificação e cultura, certo?
Justo. Eu sou uma intervenção ambulante se assim podemos dizer. rs
Estou envolvido com performance art desde 2005, sou um feto ainda, mas tenho procurado pesquisar, estudar e viver a performance o máximo que posso. Meu trabalho está focado quase sempre na discussão de limites físicos e psicológicos, em alguns eu busco confrontar os extremos do corpo. Tento revirar os dogmas da sociedade. Questionar os direitos, a noção de liberdade e de igualdade que temos e que é super falaciosa. Problematizo e contesto o especismo, machismo, sexismo, fanatismo, totalitarismo e etc… E também celebro o amor, o carinho, o afeto, o toque, a vida…
Meu trabalho tem uma pitada de anarquia e doses de poesia.
Antes da performance, mais especificamente em 1997, eu comecei alguns experimentos no corpo, o que conhecemos por body modification. Junto com os meus experimentos iniciei uma pesquisa sobre a temática e que segue até hoje. Fiz uma iniciação científica de nome “A modificação corporal no Brasil – 1980-1990” e talvez eu siga com isso no mestrado, ainda não sei.
Também tenho um site sobre essa questão, então estou pensando sobre isso 24 horas por dia. Assim sendo, vira e mexe rola uns convitinhos marotos para que eu escreva sobre body mods, e também sobre body art, faço sempre com muito gosto.
– Qual é a sua formação, você já possuia alguma experiência formal ou acadêmica com a arte, a modificação corporal, ou a comunicação?
Tenho licenciatura e bacharelado em História. Antes disso fiz técnico em Moda e tentei a graduação, que foi interrompida por questões financeiras. Foi um ano difícil. rs
Nunca tive formação em artes, o que sempre me deu uma sensação horrenda em me aceitar como artista. Até hoje me soa estranho dizer “sou um artista”. A gente tem essa cultura de educação industrial de que um papel precisa dizer que você é determinada coisa para você realmente ser. Tem tanta gente com um diploma pendurado na parede e não quer dizer absolutamente nada. Mas enfim, não tenho formação em Artes, além dos cursos de História da Arte que tive tanto na Moda quanto na História.
Ano passado fiz um curso de Experimentos em Performance que aconteceu de uma parceria entre ECA-USP e IA-UNESP, isso é formal. Tenho certificado e tudo. rs

– Como/quando começou a se interessar por body modification? Você encara isso como uma forma de expressão pessoal ou também como uma mídia?
Eu sempre fui interessado por corpos que fugissem da normativa posta pela sociedade do meu tempo. Encontrava esses corpos possíveis na fantasia, na ficção científica, no anime, mangá, histórias em quadrinhos e etc. Na adolescência foi quando tive meu contato real e direto com a contra cultura – tão logo com a tatuagem, piercing e etc – e desde então iniciei a minha jornada.
O corpo é uma mídia possível e a body mod é uma das possibilidades de gerar comunicação, não é a única via só pra deixar claro e ressaltado. E sim, vejo a body mod como uma forma de expressão pessoal, e que tão logo é cultural, social e política.  Para alguns tantos é o encontro do self.

– Como é misturar arte e corpo? Quais são as reações que já observou? Qual o intuito das suas performances?
Eu não sei na verdade como distanciaram tanto e por tanto tempo o corpo da arte. Não entendo esse ódio e negação do corpo. Se bem que para muita gente ainda hoje a body art não é arte ou é considerada algo menor. Para mim foi o caminho, eu estudei música quando criança, desenhava e pintava, mas foi através do corpo que a coisa aconteceu. Mesmo quando eu estudava e pensava mais sobre moda, eu tinha essa vontade de fazer uma moda arte e o corpo já era todo presente nesse imaginário. Eu tenho uns croquis aqui em que a fronteira entre corpo e roupa quase que não existe. Eu sinto uma potência gigante em tocar o corpo e coloca-lo para arte, cria um barulho enorme e que me interessa.
Eu costumo desligar quando estou em ação, mas me contam que umas pessoas se sentem enojadas, que dizem que o que eu faço não é arte, questionam o sentido da coisa… As que envolvem sangue causam sempre um outro mal estar. Algumas de longa duração, cansam as pessoas… Todas essas reações me interessam bastante e cada vez mais.
Por outro lado tem as pessoas que gostam muito, que se encontram, se emocionam. Na Virada Cultural de 2011 eu fiz uma performance (Arco da Histeria) na tarde do domingo e muitas pessoas choraram um bocado. Fiz uma esse ano (Supernova) em que eu trocava um abraço por flores e as pessoas me davam um olhar, um sorriso, um suspiro que eu não sei nem colocar em palavras a sensação. Veja bem, eu só queria deles um único abraço e eles – por alguns segundos – se davam por completo pra mim.
A intenção das minhas performances é cutucar, seja para mostrar que tem algo bem errado, como para dizer que tá tudo tão certo, que o meu desejo é que esse estado performativo não saia nunca mais de perto e de dentro de mim.

– Encontrou a arte através da modificação ou a modificação através da arte? Como se encaixou nesse cenário?
Eu sempre fui apaixonado pela arte, sempre mesmo. Eu era uma criança da periferia de Osasco que fazia teatro, escrevia roteiros, fazia cenários, figurinos. Inventava músicas e coreografias…
Enfiei um teatro uma vez em uma escola pública do bairro, eu era audacioso em minha inocência. Mas são memórias que não quero que sumam de mim, nunca.
Depois na adolescência tinha que estudar, trabalhar e essas coisas todas de arte foram colocadas de lado. Não demorou e encontrei a body mod. Através da pesquisa que iniciei e mencionei acima, me deparei com a body art e depois com a performance. Meu interessei foi tamanho que acabei me jogando de cabeça tanto na body art quanto na performance. E assim eu fui e estou me encaixando nesse cenário.

– Em sua vivência, como vê o cenário – existe um panorama da modificação corporal?
É um cenário gigante, diluído, dissolvido…
Hoje em dia são tantas as pessoas que não há como mensurar. Antes se tinha uma pequena noção em números e nomes através da rede social que havia no BMEzine.com, o IAM. Mas a diluição foi tamanha, que isso se perdeu…
Pensando o cenário nacional, temos um grande número de adeptos também. Se a gente fechar a reflexão em tatuados, teremos milhares e milhares. Com body mods que costumam-se chamar de “extremas” o grupo é menor, mas que cresce com o passar dos anos.
– E o site Frrrkguys? Como surgiu, qual seu papel, qual o propósito? Quantas pessoas acessam, como é a divulgação, do que sobrevive (patrocínio, assinaturas?), quantos modelos e contribuintes já surgiram interessados?
O FRRRKguys.com surgiu em 2006 da necessidade – a priori pessoal e particular – de reunir em espaço eletrônico “meninos modificados” e bonitos. Estava no ano difícil, tinha acabado de trancar a faculdade e precisava de algo pra me animar. rs  Procurei por dias e horas algum site de meninos bonitos e com body mods e não achava um. De meninas tinha dezenas.
Achei tão absurdo, pois eu tinha a sensação de que tudo já existia na internet e decidi fazer algo a respeito. Convidei alguns amigos e outros meninos que eu achava bonitos para participar do projeto e criei então um fotolog. Percebi que a necessidade em se ver esse conteúdo não era só minha. Em bem pouco tempo a coisa virou meio que um sucesso, os chilenos adorando tudo e mandando fotos. Tínhamos 3 perfis lotados no Orkut, comunidade hiper agitada… rs
Ah! No comecinho de tudo MUITOS brasileiros se recusavam a mandar fotos com o texto de que isso “era coisa de viado”… Pensamento menor impossível!
Fui acompanhando a própria necessidade do FG… Quando a coisa foi ficando mais séria, saindo na imprensa e a procura movimentada, já estava montando o site.
A ideia era seguir apenas com fotos dos meninos, mas como não tínhamos nenhum site voltado para body mods no Brasil, abracei essa necessidade.
O site é inteiro independente e conta com colaboradores. Já tive ajuda com o web design, com as fotografias, design e etc… Já paguei muita coisa do bolso também.
Atualmente tenho um único patrocinador (DROP!) que nos dá hospedagem e o site só está online ainda por conta deles. É assim que ele sobrevive. rs
Anunciantes e coisa que o valha a gente não tem. rs
Tentei vender um produtos para captar grana uma época, mas também não rolou.
Temos um canal de nome FRRRKlog, e suspeito que tenhamos mais de 800 meninos por lá…
A divulgação acontece no boca a boca das redes sociais. Esporadicamente sai uma ou outra coisa na mídia e assim vai seguindo… Nessa brincadeira vamos fazer 6 anos já, o tempo voa.
Desde que parei de usar o html não vejo mais os acessos, números são só números e não me interesso em saber.
– E o Frrkacademics?
Meu sonho com esse espaço é formar uma biblioteca eletrônica com pesquisas, teses, dissertações e trabalhos acadêmicos em geral. Pra facilitar para quem quiser pesquisar ou saber mais sobre o tema. Preciso trabalhar mais nesse canal, tem pouco material ainda.
– O que você pensa sobre identidade de gênero? Chegou a fazer alguma reflexão sobre isso?
Eu penso que é um problema para a nossa sociedade e que eles nos ensinam tudo errado.
Reflito sobre isso o tempo todo. Tem sido tão forte que fico imaginando se esse não seria o caminho para o mestrado… Será?
Eu nasci e fui criado como sendo do gênero masculino e sempre fui ligado de uma maneira muito latente com o gênero feminino com as “coisas de menina”. Perceba meu horror com os textos de “coisa de viado”, “coisa de menino” e “coisa de menina”. rs
Eu me sinto trans… No sentido de transpor ou transcender gêneros ou a dicotomia “homem” e “mulher”. Um dia estava conversando sobre isso com um amigo, inclusive que estava me entrevistando para a sua pesquisa de doutorado, e ele falou “você é queer”. Na hora ele me deu uma aula resumida sobre teoria queer e no final ambos sorrimos.
Que bom que surgiu a teoria queer!

Em suas performances você parece subverter algumas expectativas do senso comum sobre o masculino e feminino, isso é proposital ou coincidental?
Não só em minhas performances na verdade. Acho que tenho isso em mim e na minha vida.
Esses dias eu estava pensando que pinto as unhas (dos pés e das mãos) desde os 16 anos, parece bobeira e coisa pequena, mas não é.  Eu moro na periferia e caminho de chinelo pelos lugares, sempre tem umas crianças que perguntam se eu sou menina. Olha que curioso, a minha barba significa menos para eles do que a unha esmaltada.
Eu seria uma mulher barbada?
Ou um homem de unhas esmaltadas?
Fico confuso. rs
Nas performances eu potencializo essas inquietações . Uso saia curta, salto alto, maquiagem, muito véu esvoaçante… Tenho um trabalho que me transvesti inteiro (XXY).
Símbolos muito presentes no universo e representação do feminino eu transponho para o meu trabalho e tento criar uma simbiose com o meu corpo masculinizado.
São pesquisas que me interessam… Mas as minhas reflexões atuais já estão me levando para um outro lugar, mais potencializado ainda… Pretendo ir mais além nessas inquietações…

– Sua arte é de contestação ou de expressão?
Não consigo separar a expressão da contestação e ao contrário também não.
Se eu contesto eu me expresso. Se eu me expresso eu contesto.
– Como é ser gay, modificado, artista, moderador de site erótico e curador de artistas acadêmicos? Alguma dessas definições se sobrepõe na sua vida, acha que suas experiências foram diferentes por causa disso? Como é a relação com os outros? Acha que as pessoas te reduzem mais a um ou outro aspecto? Como é a aceitação delas?
Para mim é tudo muito natural e normal. Nada se sobrepõe, existe apenas aquilo que eu sou e aquilo que eu faço. Obviamente que as minhas experiências são diferentes e únicas, pois assim o é com todos os seres humanos. Acho que esta é uma das dádivas que temos!
As pessoas podem até me reduzir na concepção delas, seja por eu ser homo, trans, tatuado, perfurado, marcado, pobre, ou seja lá pelo que for… As pessoas fazem isso o tempo todo, julgam, reduzem, depreciam e quase sempre se enganam. Penso no quão triste essas pessoas são, não sabem absolutamente nada da vida ou do que é respeitar a individualidade de outrem. Mesmo que esse outrem seja aquele ser que você vê passar por alguns minutos em sua frente e que desaparece no breu para nunca mais voltar a aparecer. A gente precisa aprender olhar o outro com mais carinho, que diabos de juízes estamos nos tornando?
Eu prefiro mesmo é pensar nas pessoas que me acolhem, não pelo que eu faço ou pelo que aparento ser,  mas por aquilo que eu sou de verdade. Isso é tão melhor, faz bem pra minha alma!
Sou bastante feliz, tenho uma família linda que respeita quem eu sou, tenho amigos que fazem o meu coração sorrir e tenho ar nos meus pulmões. Só quero seguir dançando.

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