Entrevista sobre body modification, suspensão corporal e arte.

Curso: Dança
Universidade: Anhembi Morumbi

______

PARTE 1

1) Qual é (ou quais são) o(s) conceito(s) fundamentais por trás da Suspensão Corporal e da Modificação Corporal?
Tratarei a questão de “conceitos fundamentais” como motivações para as respectivas práticas.
No que concerne  a suspensão corporal, cabe mencionar que historicamente ela surge dentro de um campo ritualístico e espiritual. Tanto as tribos norte-americanas (Mandan) quanto os hindus, realizam a suspensão como forma de se conectar com o sagrado. Obviamente que cada qual dentro de um contexto diferente, mas partindo do mesmo pressuposto: sagrar.
Já na contemporaneidade, mais especificamente da década de 70 em diante, a suspensão corporal é “trazida” ao ocidente através do norte-americano Fakir Musafar, mas ainda dentro de um conceito de ritual de passagem e de espiritualidade. Não demorou para que ela começasse ser empregada em outros campos. Stelarc, artista australiano, se apropria da suspensão para realização de suas obras artísticas. Posteriormente mais pessoas foram tomando contato com a prática e ela sai do âmbito espiritual, artístico e entra em um novo campo, o do experimento físico. Dado campo merece uma maior atenção pois é onde há a maior incidência de práticas, pensando o recorte temporal do fim do século XX até os dias de hoje. Milhares de pessoas passam a realizar suspensões para entrar em contato com os limites do próprio corpo. A consequência disso é que desaguou em um campo do lazer, vários relatos de praticantes endossam que a prática da suspensão é pura diversão. Recentemente, um time de suspensão russo nos trouxe um outro campo que é dos esportes extremos, realizando quedas livre aparados por “ganchos” no corpo. Em resumo são distintos conceitos, isto é, diferentes motivações e cada qual com a sua relevância como fenômeno social, cultural e histórico. O que sinto é que há uma ligeira tendência de se denominar toda prática de suspensão como arte, afim de uma legitimação da prática, o que não é verdade. Nem toda suspensão corporal está dentro de um campo artístico e nem por isso seu caráter fenomenológico perde o valor.

Pensando a questão da modificação corporal ou das marcas corporais como David Le Breton chama, o conceito por detrás é simples: alterar a forma do corpo da maneira que melhor convier à determinado sujeito. Todo ser humano passa por um processo de modificação corporal durante a vida. Não nascemos prontos.
A alimentação, educação, medicina, estética e tantas outras coisas alteram os nossos corpos constantemente, desde o momento que damos o nosso primeiro suspiro no planeta azul.
O que acontece é que algumas modificações corporais entram em um campo de aceitáveis (aquelas que não interferem nas regras de conduta de uma sociedade regimentada por princípios cristãos, brancos, heterossexuais e ocidentais) e não aceitáveis (todas as outras que criam um ruído no status quo, dentre elas a tatuagem, piercing, implantes, escarificações, etc).
Pensando esse segundo grupo – isto é, os que praticam alterações estigmatizadas no corpo – e principalmente fechando o recorte no que se convencionou chamar de body modification, os conceitos são distintos. Estéticos, sexuais, artísticos e espirituais são alguns deles. Assim como acontece com a suspensão, como mencionei acima, há uma tendência a se denominar toda marca corporal como uma manifestação artística, o que não é verdade. Fato é, as pessoas se transformam pelas mais distintas justificativas e dentro dos mais sortidos conceitos.

2) Em que ponto, na sua opinião, Arte, Ciência, psiquismo e religião se conectam com BODY Modification e a Suspensão Corporal?
Acredito que ambas as práticas de conectam intimamente com a arte, ciência, psiquismo e religiosidade. Penso que bem pouco com a religião na verdade, exceto as tatuagens que já foram absorvidas por diversas religiões.  O que vai variar é a motivação de cada qual, talvez alguém que seja mais ligado com arte e ciência, descarte a questão da religiosidade e ao contrário também. Mas de modo geral todos esses itens mencionados na questão circulam fortemente nesse “universo”.

3) Ao ver as duas imagens de Hieronymus Bosch, você consegue comparar com a Body Modification? Em quais aspectos?
1 – http://www.repfineart.com/reproduction-oil-paintings/hieronymus-bosch/

2 – http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0d/Hieronymus_Bosch_-_Triptych_of_Garden_of_Earthly_Delights_%28detail%29_-_WGA2530.jpg

O trabalho do Bosch é surreal, isso séculos antes do surrealismo existir. A arte é uma coisa né¿ Bem, os corpos que ele sugere em sua obra são fantásticos e aqui já traçaria a primeira comparação com a body modification. Fica bem evidente essa ideia do fantástico no The Garden of Delights o que abarca o Hell e o The Creation. São ideais de corpos que fogem de uma normativa cristã e do próprio conceito de “normalidade” que a sociedade contemporânea discursa frequentemente (de maneira bem maniqueísta eu diria) e, pensando o período que eles foram feitos é de arrepiar a espinha. Aqui outro traço comparativo entre a obra e o fenômeno da alteração do corpo, o de quebra de rupturas, corpos modificados rompem com a normativa estética de nossa sociedade e isso acontece muitas vezes sem a consciência de quem se modifica, assim como daquele que modifica dado corpo.
Depois temos os sinais mais visíveis nas obras, por exemplo, espadas e outros objetos transpassando ou ocupando orifícios nos corpos… Uma corporeidade com novas formas, cores, apelos…  Hà muito o que comparar, sem dúvida.

PARTE 2

1 – O que te motivou a realizar essas práticas?
Eu sempre tive muito interesse e curiosidade por corpos que oferecessem uma lógica que fosse além da que a sociedade ocidental com todo seu moralismo e conservadorismo ofereciam. As tribos indígenas brasileiras me despertavam uma inquietação e os corpos “criados” pela ficção científica, anime, mangá, HQ me levavam ao verdadeiro encantamento.
Na adolescência entrei em contato com a contracultura, com a música eletrônica e os experimentos que tudo isso me ofereciam. Assim cheguei ao piercing e posteriormente em outras práticas da body modification.
A motivação inicial era o encontro de uma estética que antes habitava as paredes da minha mente. A cada modificação corporal feita era um encontro ou aproximação daquilo que eu sou. Breton vai dizer que é o encontro do self e comungo muito dessa ideia.
Sempre fervilhou dentro de mim a necessidade de contestar o status quo e todas as contradições que nos amarram e atrasam o nosso processo de evolução como seres humanos, haviam inquietações anárquicas dentro de mim. Quando menos percebi o meu corpo já tinha se transformado em uma arma de contestação.
Depois de muitas pesquisas, acabei encontrando a body art e então a motivação de algumas body mods foram outras. Mas todas partem dessa minha reverberação de anti conformismo e desejo de saltar fora das zonas de confortos.
2 – Quando você menciona que uma das razões é a espiritualidade, existe uma relação com a auto-flagelação existente também no cristianismo, para seguir em busca da superação da dor como forma de elevação do espírito e desenvolvimento de uma sabedoria/sensibilidade?
O movimento criado por Fakir Musafar  que recebeu o nome de Primitivos Modernos circula por essa ideia de superar a dor como forma de elevação espiritual e alcançar essa nova sensibilidade. A relação entre body mods e tanger outros níveis de consciência está muito presente nesse grupo. Só não vejo relação com o auto-flagelo cristão, pois este é uma forma de penitência e visa além da superação da dor, purificar o corpo do pecado da carne.
Os Primitivos Modernos se relacionam mais com o paganismo do que com o cristianismo em si. A questão de punir o corpo ou de pagar pecados através de uma flagelação física não existe para este grupo a ideia é realmente transcender através do corpo. Alterar a forma física e concomitantemente o espírito.
3- Você consegue relacionar, em algum aspecto, conceitos ou elementos presentes nessas imagens de Francis Bacon – abaixo – com a suspensão corporal e/ou Body Modification?
a)
http://fddreis.files.wordpress.com/2009/05/francis-bacon-1.jpg
b)
http://www.theartkey.com/index.php?page=events_id&id=1188

A obra de Bacon em si sugere concepções de corpos que fogem do padrão. Isso no período em que ele viveu era bastante impactante e acredito que causa um forte “estranhamento” até hoje. Tocar o corpo, manipular fluídos e passear por fantasias (homos)sexuais geram um incomodo absurdo nas pessoas. A nossa sociedade é regimentada por códigos de “não me toque”, cada vez mais as pessoas se tocam menos e isso me causa um certo desconforto. A “estética do estranho” (se assim posso chamar) que o artista trabalha é a mesma que rege as práticas da body mod e tocam a suspensão corporal.
A verdade é que nós deixamos que os nossos corpos sejam tocados, tocamos os nossos corpos e lidamos muito bem com os nossos cheiros, fluídos e (novas) formas, tudo isso causa um profundo mal estar aos olhares conservadores ou daqueles que se deixaram anestesiar por regras sociais, culturais e políticas.

4 – A modificação corporal, algumas vezes, envolve bifurcação da língua, inserção de implantes na testa e que remetem a figuras “demoníacas” dentro de um determinado imaginário. Você poderia falar um pouco sobre isso?
Dizem que o nosso Estado é laico, mas sabemos que não. Dizem que vivemos em uma sociedade que prima pela pluralidade, mas sabemos que não. A sociedade ocidental é regida por preceitos brancos (diria que eugenista), heterossexuais (machistas) e cristãos e é absurdamente falaciosa.
Pois bem, dentro desse esquema que vive a “imagem e semelhança de Cristo”, alterar a forma do corpo é automaticamente ser colocado do outro lado, ou seja, do diabo. É tudo bem maniqueísta mesmo e limitado. Em meados dos anos 90 quando comecei os primeiros piercings, pessoas passavam por mim e faziam o sinal da cruz. Ainda hoje tem uma ou outra ocorrência do tipo. Imagine os implantes, a língua…
Bem, mas se para a moral cristã tudo isso é “coisa do capeta” – afinal de contas a mentalidade é tão engessada que não lhes permite conhecer outras culturas, crenças e formas de habitar o planeta -, outras religiões vão ter representações de divindades justamente com esses elementos: chifres, línguas partidas, escarificações, etc…
Religiões africanas, orientais e pagãs abrem a gama de possibilidade e todas merecem tanto respeito quando aqueles que acreditam em um Deus onipotente, onipresente e onisciente.
Cabendo mencionar que muitas dessas “outras” religiões são anteriores ao cristianismo, que inclusive se apropriou de vários elementos dessas “outras crenças” para conseguir mais fiéis.
Não há nada de demoníaco em querer estar bem consigo próprio.

5 – Considerações FINAIS: para iniciar a prática de suspensão corporal, existe uma técnica específica “ensinada”/transmitida? Aonde entra o domínio da dor tem relação com conscientização corporal (estudo de anatomia/ educação somática) ou precisa haver uma conexão com outros aspectos da corporeidade, como controle da mente pautado em outros campos da vida?

Não há uma técnica ensinada para se suspender. Na verdade algumas sugestões, tais quais: durma bem, coma bem, descanse, evite drogas (lícitas e ilícitas) e aproveite a experiência.
A dor é um elemento interessante no campo da suspensão e cabe grifar que NÃO é a motivação ou busca principal de quem se suspende. Não se trata de uma ação sadomasoquista.
A grande maioria das pessoas que vão se suspender já passaram por outras explorações corporais o que acredito que de certa forma seja um preparo para aguentar o que a experiência exige.
Existe a dor das perfurações e em algumas posições a dor quando se está suspenso é inexistente. Algumas vezes o medo é maior que a dor e isso barra um pouco a experiência.
No meu caso, eu procuro fazer um trabalho de concentração aliado com a respiração e tem funcionado bem. Em algumas suspensões eu não sinto dor alguma e em outras já nem consigo sair do chão por conta da intensidade da coisa. Sempre é uma primeira vez.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: