Entrevista para o portal IESB

Entrevista que será publicada no portal do Centro Universitário IESB.

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1- Qual é o seu nome (pode ser apelido mesmo), idade e profissão?
Thiago Soares (atendo pelo pseudônimo de T. Angel), 30 anos, historiador e artista da performance.

2- O que é a modificação corporal?
Modificação corporal é toda e qualquer interferência que fazemos no corpo de forma voluntária (e há também aquelas tantas modificações que acontecem involuntariamente) com fins estéticos, religiosos, medicinais, artísticos, sexuais e etc.

3- Você fez um trabalho de antropologia sobre modificação corporal no Brasil nos anos 80 e 90. Como foi fazê-lo? O que descobriu de interessante acerca do tema?
Eu fiz um trabalho de história com uma perspectiva antropológica sobre as modificações corporais no Brasil. Recortei meu tema dentro do campo da tatuagem, piercing, implantes e escarificações, já que as possibilidades de alterar o corpo são tantas.
Foi um trabalho que dediquei muito de mim e de anos de vivência em campo. Antes de ser “o pesquisador” (com todo cuidado pra não soar pedante, rs) eu era um sujeito que já vivia essa(s) prática(s).
As impressões ao pesquisar é que carecemos muito de material (livros, vídeos, textos, revistas e etc.) aqui no Brasil, isso é um problema. Digo material com qualidade e livre de uma visão leviana ou oportunista acerca do tema. Ao mesmo tempo, a gente entra em contato com o mundo das pessoas que vivem isso com tanta paixão que nos motiva seguir com os estudos.
Sobre as descobertas, há inúmeras coisas interessantes, a exemplo, o forte elo das práticas contemporâneas com os índios que habitaram aqui antes desse lugar se chamar Brasil. Dado fato categoriza a prática de modificar o corpo como um fenômeno social e cultural bastante válido e até mesmo como um símbolo de resistência.
A pesquisa está disponível em PDF no meu blog para todos que se interessarem e quiserem saber um pouco mais.
4- No resumo do trabalho você conta que as pessoas fazem as modificações por vários motivos, como religião, cultura, estética, etc… Você saberia dizer, no Brasil, qual desses motivos é mais comum? E o seu motivo, qual é?
Bem, acho que um dos pontos mais importantes quando vamos refletir sobre essas práticas é a de que elas não partem de um ponto homogêneo, lugar comum. As motivações são tão vastas quantas as possibilidades de se alterar um corpo. Normalmente há uma tentativa de criar noções generalizadas, olhar para esse “grupo de pessoas” como uma unidade, tribo ou coisa que o valha. Os meus entrevistados são exemplos dessa multiplicidade de motivações e formas de viver a vida além da modificação corporal. Definitivamente não tem como generalizar, é a diversidade pura e clara.
Em todo caso, percebo que a estética é muito forte para a maioria das pessoas que procuram por essas modificações. Uma estética que para alguns é uma forma de se colocar no mundo de maneira única (de se sentir como individuo) e para outros o avesso disso. Muitas modificações corporais (a tatuagem e o piercing, por exemplo) foram assimiladas bem pela cultura de massa e do consumo, nesse sentido as pessoas não se preocupam tanto com a coisa da individualidade pós-moderna e só querem mesmo é seguir a fila de uma estética vigente e “aceitável” em nosso tempo. São processos…
A história humana é justamente isso: processo.
Eu comecei a alterar o meu corpo por questões estéticas e ao passo que fui pesquisando a coisa toda foi sendo direcionada pra arte. Hoje grande parte do que faço está dentro do meu trabalho e pesquisa com a body art.
5- Há, no Brasil, muitos adeptos da modificação corporal?
Sim, há muitos brasileiros adeptos dessas práticas. Tantos que não é possível mensurar. Nem sempre foi assim. Do ano 2000 para cá o aumento foi gigante.
Só vale lembrar que mesmo aqueles que não se tatuam, perfuram, queimam, ou se cortam, acabam por alterar o corpo de uma forma ou de outra. Cortamos o cabelo, usamos produtos químicos, medicamentos, alimentação, esportes, trabalhos, estudos… Tudo isso altera o nosso corpo. O que quero dizer¿ Bem, não há um ser na face da Terra que não tenha passado por um processo de modificação corporal. E isso não deveria ser uma novidade para ninguém! rs
Acredite, algumas formas de alterar o corpo são tão extremas (cirurgias plásticas estéticas, por exemplo) quanto um piercing ou uma tatuagem. A diferença é que elas permanecem dentro do campo do aceitável segundo as normas de conduta da sociedade ocidental, branca, heterossexual e cristã. Tem que ser (re)pensado.

6- Ano passado você deu uma palestra aqui em Brasília sobre o tema. Como foi recebido? Haviam muitas pessoas interessadas? Deu pra notar se aqui há muitos adeptos?
Já fui pra Brasília algumas vezes e todas elas para participar de eventos de body mods. Cabe mencionar que esses eventos aconteceram por esforço e dedicação de um profissional chamado Eduardo Bez, que por sorte é um amigo querido também.
Verifiquei que realmente há um alto número de pessoas envolvidas com as body mods em Brasília. Inclusive, historicamente o Distrito Federal tem um peso grande com essas práticas e com a da suspensão corporal também.
Para palestra não houveram tantos interessados, mas isso não é um problema com a capital do país, sinto ser uma crise nacional. rs Organizei alguns eventos por São Paulo e em uma das experiências, posso afirmar que foi uma das maiores decepções da minha vida pra ser sincero. Deparar-me com a aparente falta de interesse desse público foi traumático, mas já me refiz. rs Não há material, não há muitos eventos, não muitas possibilidades e quando elas existem as pessoas simplesmente não aparecem. Não sei o motivo, só sei que para mim foi decepcionante e ao mesmo tempo me trouxe milhares de novas reflexões. Tudo tem um lado positivo!
É tão importante pensar essas práticas, discutir, problematizar, lutar, galgar por uma visibilidade positiva. Muito felizmente tenho sido convidado para palestrar em algumas universidades e sempre agradeço muito pelo espaço, pois é o momento em que é possível sentir que as pessoas olham pra coisa com outros olhos. Tiram aquela visão turva sobre essas práticas. Não estou dizendo que as pessoas saem querendo se modificar, mas apenas passam a entender melhor as motivações que inúmeras pessoas têm para mexer em seus corpos.
E pra mim como pesquisador são sempre experiências enriquecedoras, sempre saio com milhares de pulgas atrás dos meus alargadores.

7- No seu caso, quando você decide fazer alguma modificação em seu corpo, como você lida com a dor? Você geralmente gosta dos resultados?
Não gosto de sentir dor, definitivamente não. Mas entendo que ela faz parte desses processos e vou até onde meu limite permite. Gosto muito de respeitar e ouvir o corpo.
Os resultados atendem as minhas expectativas, algumas vezes mais e outras menos, mas seguimos o processo.

8- Há ainda muito preconceito com a pessoa que modifica seu corpo, não apenas com piercings e tatuagens (um pouco mais aceito pela sociedade), mas também com próteses e cirurgias? Ainda é visto por muitos como “bizarrice”? Como vocês lidam com isso?
Há muito preconceito com quem altera a forma do corpo. Há muito preconceito também com pessoas que passam longe de tatuagens mais visíveis e mesmo daquelas discretas que habitam as curvas mais íntimas de um corpo. Há muito preconceito nesse mundo de fato e esse é um dos grandes males infelizmente. Uma praga do nosso tempo, que não nasceu agora obviamente, mas que deixamos que ainda coexista conosco. Preconceito de nenhum tipo deve ser admitido, aceitável, alimentado por qualquer pessoa. Isso independe de credo, classe social, cor, gênero: o preconceito – seja ele qual for – é um atentado hediondo à liberdade e deve ser extinto.
Dito isso, bizarrice pra mim é alguém julgar a capacidade intelectual, profissional, emocional de um outrem pelo que ACHA que ele(a) possa ser. Bizarrice pra mim é esse esquecimento da nossa história em que o preconceito só produziu tragédias e desgraças infinitas.
Relembrar é viver e viver bem!

9- Há uma divisão de grupos entre pessoas que gostam de tatuagens, por exemplo, e pessoas que gostam de mod 3d e modificações mais profundas? Como é essa questão?
No meio profissional aparentemente sim, o que acaba por se espalhar para os entusiastas e praticantes, mas aqui sempre com a cautela de quem se pisa em vidro com as generalizações. Um bom exemplo são as convenções de tatuagem que não abrem muito espaço para outras técnicas de alterar o corpo. O que se conveniou chamar de modificações extremas (scars, implantes e etc.) passam bem longe desses espaços. Há muito o que se discutir.

10- Há concursos, campeonatos acerca do tema?
Há concursos de tatuagens, piercings e só. Ainda bem! rs
Essa lógica de competição que o tempo moderno nos traz e nos enfia vida afora fere um pouco os meus princípios éticos. Ninguém precisa ser melhor que ninguém, as pessoas precisam é aprender a respeitar mais umas as outras, para que vivamos em um mundo melhor. Esse mundo machucado sim precisa ser melhor e depende muito de nós. Todos nós!
Não sei até que ponto as competições no âmbito das body mods é positivo. Talvez um dia eu descubra… Talvez não… rs

T. Angel

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