Entrevista sobre performance e o Festival de Apartamento

Curso: Ciências Sociais
Instituição: Universidade Federal de São Carlos

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Como você conheceu a arte da performance?
Conheci a performance art através das minhas pesquisas sobre body modification. Aos poucos fui caminhando e me aprofundando sobre o tema e de diversas formas a performance foi “aparecendo” em minha vida.

Como iniciou seu trabalho nessa forma artística e qual seu interesse nessa forma de arte?
Acredito que tenha feito a primeira performance, no sentido de estar consciente do que se tratava, em 2005. Momento este em que eu cursava Moda e tive uma disciplina de Expressão Corporal com a querida professora Raquel Ornellas. Desde sempre eu me interessei pela potência anárquica e principalmente pela possibilidade de discutir o mundo e as contradições do meu tempo através da arte. Era algo que já vinha acontecendo através das manipulações que eu fazia em meu corpo, então foi só questão de focar e direcionar para onde eu queria e como eu pretendia.

Pra você, o que é performance?
Performance é a minha vida. É parte indissociável de mim. Sempre foi na verdade, ainda que eu não tivesse conhecimento ou consciência do histórico da performance art. É o que eu inspiro e expiro, fim.

Há algo que desperta mais seu interessa na performance, como por exemplo, o processo de criação, a possibilidade de comunicação/linguagem, as técnicas corporais e seus discursos..?
Não há uma parte de tudo que envolva uma performance que me interesse mais. Pra mim, sinto que se houvesse uma certa predileção por uma determinada parte em relação às outras, o meu trabalho teria um resultado final um bocado deficiente. Todo o processo é intensamente belo e me fascina.

Começou a desenvolver esse trabalho sozinho ou teve algum tipo de preparo/ensino/ aprendizado de técnicas?
A minha primeira performance (FUR, 2005) foi dentro da universidade com o suporte da professora Raquel Ornellas. Era tudo muito novo pra mim, fizemos a leitura de poucos textos e houve total liberdade para criação. Então fiz um trabalho que questionava o consumo de pele animal dentro do mercado da moda e ao mesmo tempo explorando os meus limites físicos.
Mas cabe dizer que em suma o caminho foi quase sempre bastante solitário.

Quais suas influências para compor uma performance?
Varia de acordo com o que quero discutir em determinado trabalho. Mas algumas influências fortes são: body art, terrorismo poético, poesia, ativismo, body hacktivism, dança, música, amor, igualdade, limites, fronteiras, sonhos, utopias, tempo…

Quais suas principais influências artísticas na composição de suas performances (artes plásticas, dança, música, teatro, dança..)? Você busca referências em outros performers? Quais?
Atualmente a dança está ficando forte dentro do meu trabalho de performance. O hibridismo da performance é uma maravilha. Acabei potencializando a dança e estou feliz com esse caminho. Sempre bom visitar e revisitar outros artistas e alguns performers, minha memória não é muito boa, mas costumo passear pelo universo do Ron Athey, Franko B, Priscilla Davanzo, Jon John, Marina Abramovic, Stelarc, Orlan, Kazuo Ohno, Pina Bausch, Marcelo Gabriel, La Fura dels Baus, Acionistas de Viena, Flávio de Carvalho, Louise Bourgeois, etc, etc, etc… Tem tanta gente fabulosa que me inspira e me ajuda nos meus vômitos artísticos… Poesia pura.
Chega ser até meio desleal citar tão poucos, mas enfim…

Você considera a performance uma manifestação com potencialidade de transformação? (seja no que se refere à subjetivação do próprio performer ou dos espectadores)
A arte – com todas as suas linguagens – é revolucionária, transformadora. É uma arma de potência imensurável, tanto para o bem como para o mal. A história da arte não me deixa mentir.

Como conheceu o Festival de Apartamento e como se inseriu nesse meio?
Estava pesquisando um dia e acabei encontrando o festival. Fiquei fascinado e com muita vontade de participar, ao mesmo tempo não sabia se o meu trabalho artístico era bom o suficiente para tanto. Nunca havia participado de eventos exclusivos para performance. Os meus trabalhos aconteciam em festas e eventos undergrounds.
Enfim, o meu desejo de estar lá foi maior do que o medo que eu tinha. Acabei me inscrevendo e foi uma experiência ótima e muito feliz. Acabei passando por duas edições e todas elas eu guardo com muito carinho no coração.

Quantas vezes já participou do Festival de Apartamento? Já participou do festival apenas como público, se sim, quais foram suas impressões?
Participei duas vezes como performer, em 2011 e 2012.

Como você percebe a interação do público com os performers no festival de apartamento? Existe uma preocupação sua em relação à recepção de sua performance pelos espectadores?
Isso foi algo novo para mim, o público do festival quer participar da performance. A interação é muito forte e eu não estava acostumado. O meu primeiro trabalho era de longa duração e sem interação direta com o público. Quando eu menos esperava lá estavam as pessoas dizendo e fazendo coisas. Isso acabou abrindo minha percepção para outras questões.
O meu segundo passeio pelo festival já foi inteiro interativo. A performance necessariamente precisava que o público participasse comigo e foi bacana, acho que aconteceu como eu queria. Obviamente com algumas ações inesperadas pra mim.
A recepção do público me interessa no sentido de possibilitar diálogos. Vai além do “gostei” ou “não gostei”, são conexões e comunicações.

Realiza performances em outros locais? Quais? Você percebe alguma diferença entre o público do Festival de Apartamento e de outros locais no qual já realizou suas performances?
Como eu disse acima, minha trajetória na performance aconteceu quase sempre fora do meio da arte em si. Por isso acho que demorei tanto para meu reconhecer como artista em si, se é que já me reconheci… rs Sempre que falo “sou artista”, sai com espinhos na garganta. rs
Bem, performei em eventos, festas, encontros… O público era outro, eles rejeitavam, temiam, aceitavam, amavam e quase sempre criavam fronteiras de até onde poderiam ir com o papel de público. Era uma relação de distanciamento físico. Mas como foi o meu ambiente por anos, acabei entrando em uma zona de conforto. Quando cheguei no Festival de Apartamento fui automaticamente retirado dessa zona e colocado em uma outra nova e muito interessante.

Sobre sua performance no Festival de Apartamento:

Qual seu objetivo ao realizá-la?
Promover relações de afeto, carinho e amor entre pessoas. Eu estava apaixonado, vivendo um momento lindo da minha vida e gostaria de replicar isso com “desconhecidos”.

Já havia sido feita em outro local? Quando? Onde?
Foi um trabalho inédito.

O que achou da recepção por parte do “público”? Era o esperado?
Supriu todas as minhas expectativas. Eu poderia ter ficado deitado por horas sozinho e isso não aconteceu. As pessoas deitaram para ter um momento comigo e mergulharam em tudo. Foi uma ótima experiência.

Há uma preocupação maior com a produção em si, a mensagem a ser passada ou com estética final em sua manifestação artística?
Não dá para separar, ao menos pra mim não é possível. Aquela coisa da deficiência que falei acima cabe aqui também.
A exemplo, em Unmade Bed a estética e a produção eram muito importantes e a mensagem era passada através desses itens. Eu estava criando um espaço especial para dividir com alguém(s). Como fazemos com aqueles que amamos e que queremos dar o que há de melhor na gente. O amor que colocamos quando preparamos uma carta, um café da manhã, um banho ou uma cama para dividir momentos únicos e inesquecíveis.

Como você percebe seu corpo no processo de criação e execução dessa performance?
Meu corpo foi percebido como a materialidade necessária e fundamental para expressão daquilo que estava dentro de mim.

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