2:F33L 4:FR33 – Please make me real

John Preston: What’s the point of your existence?
Mary: To feel. ‘Cause you’ve never done it, you can never know it. But it’s as vital as breath. And without it, without love, without anger, without sorrow, breath is just a clock… ticking.”
Equilibrium. USA, 2002.

Female Colleague: […] If a robot could genuinely love a person what responsibility does that person hold toward that Mecha in return? It’s a moral question, isn’t it?
Professor Hobby: The oldest one of all. But in the beginning, didn’t God create Adam to love him?
A. I. Artificial Intelligence. USA, 2001.

Hipnóticos, tranqüilizantes, barbitúricos, antidepressivos, estimulantes e a lista cresce e segue sem fim… O que David Le Breton denominou como “a medicalização do humor cotidiano” nos leva a refletir no quão artificial está se tornando a vida ou a maneira como concebemos o viver na sociedade contemporânea.

“O usuário comum dos psicotrópicos vive a si mesmo como uma espécie de console ligada a um corpo do qual ele programa à vontade os desempenhos afetivos.”
David Le Breton – Adeus ao Corpo

Consciente ou inconscientemente, o auto “programar-se”, ainda que de forma “legalizada” pela medicina, é parte – e se propõe a ser cada vez mais – da nossa sociedade. Blade Runner (1968) de Philip K. Dick já nos colocava diante desse manuseio e controle do humor. Poder escolher o conteúdo e o tempo das sensações que queremos sentir, como se escolhe o prato que será servido no jantar. Não sentir ou fazê-lo de forma equivocada ou artificial faz parte deste quadro ou jogo de esconde-esconde. É a jornada do homem moderno que se aliena de si próprio.  Ter uma pílula para ficar feliz, triste, dormir, acordar, ter e perder o apetite, ter e perder o desejo sexual, cores e tamanhos mais variados possíveis. Tudo é possível para sermos nós mesmos e concomitantemente não sendo nós mesmos. Não se trata de uma discussão filosófica shakespeariana acerca do “ser ou não ser”, mas sim de entender o ser como sendo muito mais que apenas existir. Ser na plenitude, de forma humana, “demasiada humana”.
O homem moderno – prepotente e tão cheio de si – se assemelha aos avestruzes quando se trata de encarar os próprios medos, enfia a cabeça num buraco farmacológico para se proteger daquilo que teme. Defrontar-se com as situações cotidianas e com os próprios sentimentos teria se tornado uma admirável atitude extinta ou estaria próxima do fim?

As pessoas não choram, pois chorar é entendido como demonstração de fraquezas. Ser fraco é ser inferior. Os sorrisos são abafados. A tristeza repudiada, a alegria questionada e quem foi que disse que renegar a si próprio é ser superior ao que e à quem?

A questão posta em A. I. Artificial Intelligence sobre as máquinas serem capazes de amar os homens, mas se haveria reciprocidade verdadeira por parte dos humanos, deveria ser uma questão presente no cotidiano, para não faltar amor.

“2:F33L 4:FR33” busca discutir a relação homem versus ele próprio na sociedade contemporânea. O debate proposto pela ação não se predispõe a seguir num sentido apenas antagônico, mas busca passear pelas possibilidades múltiplas que nascem ou se constroem nesse processo de interiorização. Os desencontros e encontros do ser.
O sujeito contemporâneo, incluso e escravo de uma sociedade de consumo, massificada e alienada pelo capitalismo, se difere até que ponto de um relógio? Até que ponto o corpo condicionado por preceitos de uma cultural capital, branca, ocidental, machista e heterossexual não está “mecanizado”? Até que ponto o corpo regimentado e regulado por drogas é orgânico e não apenas um objeto inanimado?
Sentir é muito mais que simplesmente existir, ser supostamente deveria ser muito mais que apenas estar.

Fotos: Leando Pena – http://www.leandropena.com

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Performance que integrou o X Festival de Apartamento de Campinas em Julho de 2011.

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